Vivemos a Era do Empoderamento do Idiota

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Não vivemos a era do esclarecimento, mas a era do empoderamento do idiota

Por Henrique Matthiesen*

O século XXI, celebrado como o ápice da modernidade, apresentou-se como a era da expansão do conhecimento, do acesso democrático à informação e da emancipação intelectual. Era a promessa de um tempo em que cada ser humano, com um dispositivo na mão, teria as chaves de todas as bibliotecas do mundo. Porém, nesse cenário de potencial iluminismo digital, uma tragédia silenciosa se instala: não vivemos a era do esclarecimento, mas a era do empoderamento do idiota.

A contradição é brutal. Jamais estivemos tão cercados de informação e, paradoxalmente, jamais estivemos tão distantes da sabedoria. A contemporaneidade transformou-se num deserto intelectual, um território sem profundidade, onde o brilho da tela substituiu o brilho da consciência. Vivemos numa sociedade saturada de dados, mas anêmica de sentido; repleta de opiniões, mas carente de pensamento; lotada de falas, mas órfã de discernimento.

O empoderamento do idiota não nasce do acaso. Ele é fruto de uma época que confundiu visibilidade com relevância, barulho com autoridade, emoção com argumento. As redes sociais democratizaram a fala, mas não democratizaram o raciocínio. No meio digital, não há mestres, não há referências, não há filtros: há apenas uma assembleia infinita de egos que acreditam que tudo o que sentem é verdade, tudo o que pensam é válido e tudo o que expressam é incontestável. O idiota contemporâneo não é apenas ignorante — ele é, sobretudo, convicto.

Vivemos o tempo do indivíduo que se recusa a aprender porque acredita que já sabe; que rejeita a complexidade porque ela exige esforço; que despreza a história porque ela desafia sua arrogância juvenil. É o sujeito mimado pelo algoritmo, agraciado por curtidas, entorpecido por dopamina. Ele não quer compreender: quer confirmar. Não quer conhecer: quer vencer disputas imaginárias. Não quer dialogar: quer impor-se. A ignorância, assim, deixa de ser uma condição a ser superada e transforma-se em postura, estilo, identidade.

Enquanto isso, pesquisas internacionais apontam um fenômeno alarmante: as novas gerações apresentam declínio cognitivo, algo inimaginável em plena era digital. O chamado “Efeito Flynn”, que por décadas mostrou a ascensão dos níveis de inteligência, agora regride. Em outras palavras: os filhos estão se tornando menos inteligentes do que os pais. Nunca houve tanto acesso à informação — e nunca houve tão pouco alcance mental sobre o que essa informação significa. O idiota de hoje é tecnologicamente sofisticado e intelectualmente subalimentado. Um analfabeto funcional de luxo.

A razão desse colapso é estrutural. A tecnologia, que poderia ser instrumento de emancipação, converteu-se em um dispositivo de domesticação. Produziu-se uma geração treinada para reagir, não para refletir; para consumir, não para compreender; para acelerar, não para amadurecer. A hiperconexão sequestrou a atenção, dissolveu o silêncio, fragmentou a memória. A profundidade foi substituída pela velocidade, e a velocidade, pela compulsão. Somos a civilização que trocou a reflexão pelas notificações.

Essa cultura da futilidade globalizada gerou um tipo humano inédito: o indivíduo superficialmente informado e profundamente desorientado. Ele sabe de tudo em nível raso, mas não domina nada em nível crítico. Vive uma existência horizontal, incapaz de mergulho. É a geração que lê títulos, mas não lê textos; que vê vídeos, mas não lê livros; que memoriza frases, mas não compreende ideias. Uma geração miojo, instantânea, que perdeu a capacidade de esperar, de elaborar, de construir.

E, talvez o mais preocupante, vivemos uma época em que a ignorância se tornou orgulhosa. O idiota empoderado não teme expor sua falta de profundidade; ao contrário, exibe-a como bandeira de autenticidade. Teme a erudição, pois ela revela o abismo de sua incapacidade. Teme a história, pois ela desautoriza sua soberba. Teme o conhecimento, pois ele exige humildade — algo que o empoderamento do idiota não pode aceitar. A arrogância, assim, substitui o argumento; o grito substitui o raciocínio; o impulso substitui a razão.

O resultado desse processo é devastador: uma sociedade que celebra a ignorância, pune a inteligência e ridiculariza a sabedoria. A reflexão se torna elitismo, a dúvida se torna fraqueza, a leitura se torna obstáculo. Em seu lugar, impera a autoridade do improviso, a tirania do “achismo”, a ditadura do imediato.

O século XXI entrou para a história não como a era da modernidade plena, mas como a era da infantilização das consciências. Estamos testemunhando, em tempo real, a vitória do raso sobre o profundo, do rápido sobre o consistente, do idiota sobre o sábio.

E, se há algo que ainda nos resta enquanto civilização, é a obrigação de resistir. Resistir à tirania da pressa, ao império da superficialidade e ao culto da ignorância. Resistir à sedução das telas, às ilusões da instantaneidade e à crença de que pensar é supérfluo. Resistir ao empoderamento do idiota — não apenas como indignação, mas como tarefa histórica.

Porque, se a humanidade continuar a desprezar a profundidade, não haverá tecnologia capaz de salvar o que restará de nossa inteligência. Por Henrique Matthiesen / Formado em Direito e Pós-Graduado em Sociologia.

 

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