Por Roberio Sulz
Para lembrar, Boró é aquele brasileiro, morando temporariamente em Minnesota, uma das mais gélidas e nevadas regiões do norte estadunidense. Mineiro de Itaúna, acompanhava sua esposa em curso de pós-graduação. Engraçado por seu inconfundível sotaque mineiro do quadrilátero ferrífero, Boró protagonizou divertidos momentos à colônia brasileira que por lá residia, narrando suas inimagináveis versões sobre fatos e vultos históricos deste nosso planeta. Em primeira mão, compartilhava suas histórias no marasmo do laboratório de genética médica, aonde Pedro o levava para ajudar a matar o tempo enquanto conduzia experimentos com camundongos.
No Brasil a ditadura completava pouco mais de uma década, impondo e difundindo a cultura da ordem política militar.
Sem mais nem menos, Boró saiu com essa:
- Ô Pedro, você já ouviu falar do Capitão Nixon?
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Não, Boró. Aqui nos Estados Unidos tinha um presidente com esse nome…
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É esse mesmo! Sabe, ele era filho de uma costureira que trabalhava em casa. Muito organizada, guardava linhas, botões, agulhas, retalhos e todas aquelas quinquilharias de costura em gavetas. Também mantinha em gavetas, comprimidos, pedidos das clientes, documentos e até um dinheirinho para o dia-a-dia. Se a mãe tinha mania de guardar coisas em gavetas, o menino Nixon tinha mania de abrir e fuçar gavetas. Não só por curiosidade. Era doença – mesmo – que ninguém sabia explicar. As gavetas trancadas a chave eram as que mais lhe atraiam. Ele sempre dava um jeito de abri-las. Colecionava chaves-mixa. Levou muito beliscão e puxão de orelha por conta disso. Na escola ninguém suportava mais o vício de Nixon. O menino cresceu e entrou no exército. Fez carreira no SNI americano. Era craque em fuçar gavetas suspeitas. Agradava de montão os generais, seus superiores. Descobriu foi muita coisa escondida pelos adversários dos militares.
Inigualável na arte de bisbilhotar e tido como moço bem mandado por seus superiores, os militares botaram ele na presidência. Mas, impuseram-lhe uma condição: nunca tentar abrir as gavetas da sala oval dos generais da Casa Branca, nem tentar descobrir os segredos que garantiam a potência americana no mundo.
- Que história, Boró! Prossiga! – observou Pedro, a lhe dar corda.
Nixon entendeu e prometeu ficar quieto. Mas, com o tempo, não aguentou a coceira que ardia sua cabeça e suas mãos. A mania do homem era doença triste, Pedro! Os generais mantinham uma dupla de meganhas vigiando dia e noite a sala oval e as gavetas. Nixon não se continha. Chegou a passar noites inteiras acordado só para aproveitar um cochilo ou distração dos vigilantes. Certa noite ofereceu chá com remédio de sono aos guardas e, na calada da madrugada, entrou, de gatinho, na sala de seus sonhos. Um deslumbre! Centenas de gavetas. Com ajuda de uma lanterninha, sua argola de chaves-micha e muita prática pessoal em superar trancas e cadeados, foi fuçando e que podia. Mas – coitado – esqueceu-se de que os generais, desconfiados de sua mania, costumavam dar umas incertas por lá, fora do expediente. Foi assim que eles pegaram Nixon com a boca na botija. Chamaram-no numa boa e obrigaram-no a assinar um pedido de renúncia. A bordo de um helicóptero, despacharam-no de volta para casa. Um dos generais, seu colega de infância, dedicou-lhe a mensagem de despedida: “vá fuçar as gavetas de sua mãe!”
Pedro compreendeu a história assim traduzida na cachola de Boró. Tudo indica por conta da atmosfera política vigente no Brasil.
Boró também contou sua versão sobre os feitos e morte de Emiliano Zapata. Segundo ele, não haveria surgido no mundo homem mais corajoso que Zapata. Herói dos heróis, que sempre dizia: “antes morrer de pé do que viver ajoelhado”. Levado pelo sentimento de admiração, Boró algumas vezes confundia o heroísmo do revolucionário mexicano com Zorro, personagem do cinema. A destreza de Zapata ao lidar com cavalos foi uma das coisas que mais lhe marcou. Segundo ele, Zapata não só sabia amansar e adestrar cavalos, mas tratava o animal como fiel amigo. Foi montado em seu cavalo branco que circulou pelo México e inventou o movimento dos “sem terra”, depois imitado no Brasil. Zapata era ídolo de Pancho Villa. Se Zapata, com sua bravura, causou medo aos ditadores do México, Pancho Villa mostrou ousadia ao invadir os Estados Unidos e enganar o exército americano que o procurava feito louco nos desertos mexicanos. Zapata e Pancho Villa terminaram sendo companheiros de batalha. Segundo Boró, Pancho Villa devia ser filho de cigano para ter tanta esperteza. Não se deixou iludir por traidores como fez Zapata que foi na conversa de um tal Jesus e terminou aceitando convite para um encontro. Lá chegando, foi morto com mais de cem tiros pelas costas. Nem o cavalo branco conseguiu se salvar.
Pedro e Boró retornaram ao Brasil por volta de 1980. Pedro está aposentado como professor da Escola Paulista de Medicina. Boró separou-se da esposa e vive de um barzinho em João Monlevade/MG. Disse-me que ainda conta aquelas versões. Mas, não fala da neve nem de sua experiência de vida na América, para não passar por mentiroso.
*Roberio Sulz é biólogo e biomédico, MSc. (University of Wisconsin, USA). Membro Correspondente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador/BA. [email protected]