UFSB Ciência: Artigo na Nature conclui que grandes áreas florestais garantem maior biodiversidade que fragmentos menores

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Professor Luiz Fernando Magnago, da UFSB, é um dos autores e explica os resultados da pesquisa com dados globais

Em um artigo publicado na recente edição da revista Nature, cientistas reuniram evidências de que florestas mais extensas proporcionam maior quantidade e variedade de espécies na comparação com fragmentos florestais. A conclusão importa porque pode resolver uma discussão de décadas no âmbito das Ciências Ambientais. Além disso, os resultados reforçam a necessidade de criar e fazer valer leis e políticas públicas que promovam a preservação de grandes extensões de mata e a reconexão de fragmentos menores para o cuidado com a biodiversidade e o acesso aos serviços ecossistêmicos que ela oferece. A pesquisa tem entre seus autores o professor Luiz Fernando Magnago, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

O estudo intitulado Species turnover does not recover biodiversity in fragmented landscapes foi liderado pelo biólogo Thiago Gonçalves-Souza e aborda um debate entre vertentes de pesquisadores preocupados com estratégias de conservação de biodiversidade. Diante da crescente urbanização e do avanço de monoculturas sobre áreas de floresta nativa, uma ala se voltou para o que seria possível preservar de biodiversidade em fragmentos florestais, o que gerou conhecimento sobre os efeitos da fragmentação. Outra ala focalizou a relevância da preservação de contínuas e extensas áreas de floresta para a manutenção da variedade de espécies animais e vegetais. Assim, há estudos anteriores que mostram que a fragmentação reduz a diversidade local (α) devido à perda de habitat, isolamento de populações e efeitos de borda. Outras pesquisas anteriores sugerem que a diversidade β (beta, a diferença entre comunidades em fragmentos) pode aumentar em paisagens fragmentadas, compensando a perda de α (alfa, a diversidade de espécies em um fragmento) e mantendo a diversidade γ (gama, a diversidade total da paisagem).

Essa discussão fomentou uma série de pesquisas ao longo dos anos, permitindo o acúmulo de dados que podem ser analisados com recursos computacionais. Essa foi a intenção do artigo publicado: uma meta-análise computacional com dados coletados e tratados de 37 estudos em seis continentes, a maior parte (64%) realizada na América Latina. A amostragem compreendeu dados daqueles estudos referentes a 4.006 espécies (33 anfíbios/répteis, 162 aves, 227 mamíferos, 1.859 invertebrados, 1.725 plantas) e estabeleceu uma comparação entre paisagens contínuas (florestas extensas, entre mil e 300 mil hectares) e fragmentadas (média de 148 hectares por fragmento). Para trabalhar a partir dos dados das 37 pesquisas anteriores, os pesquisadores trabalharam com o programa R e o banco de dados aberto e global LandFrag, padronizando a diversidade padrão nas escalas alfa, beta e gama e equalizando o esforço amostral entre fragmentos, dentre outras providências metodológicas.

As conclusões informam que a fragmentação florestal é ruim para a biodiversidade em todas as escalas, mesmo no nível beta, que não é suficiente para compensar a perda de espécies na paisagem total. A diversidade no nível local se reduz em 13,6% em paisagens fragmentadas; quando considerados fragmentos distantes entre si, há um pequeno aumento de biodiversidade, mas o efeito desaparece quando se controla a decadência da similaridade com a distância entre fragmentos, e mesmo assim, se mostrou insuficiente para compensar a queda de 12,1% de variedade de espécies na escala da paisagem total (gama) quando ocorre fragmentação. Os resultados da síntese global feita pelos pesquisadores foram tema de matéria na revista Fapesp.

Conservação e reconexão de florestas

rebio UNA 01O biólogo e docente do Centro de Formação em Ciências Agroflorestais da Universidade Federal do Sul da Bahia (CFCAF/UFSB), Luiz Fernando Magnago, colaborou com o estudo e é um dos autores do artigo. Ele explica que os resultados da síntese global colocam um ponto decisivo no debate sobre se a variedade de espécies em diferentes fragmentos florestais compensaria a perda de espécies percebida dentro de um fragmento florestal.

“A discussão sobre os efeitos da fragmentação florestal na biodiversidade tem sido longa e complexa. Mais recentemente, alguns estudos sugeriram de pesquisadores importantes causaram polêmicas ao defender que a fragmentação poderia não ser tão prejudicial em paisagens onde a diversidade beta (β) entre fragmentos aumentasse, potencialmente compensando a perda de diversidade alfa (α) em fragmentos individuais. No entanto, os resultados do nosso estudo indicam que, embora a diversidade beta possa aumentar em paisagens fragmentadas, isso não resulta em uma maior diversidade gama (γ) em escala de paisagem. Assim, a ideia de que a fragmentação poderia ser benéfica para a biodiversidade foi refutada. Novamente, nosso estudo traz o reforço da necessidade de se investir na conservação de áreas florestais grandes e contínuas”, declara o professor Magnago.

Essa constatação baseada em dados tem valor de evidência para decisões em termos de políticas públicas. O professor Magnago indica que os resultados do estudo sugerem a priorização de investimentos de conservação em grandes áreas contínuas de floresta, em vez de apostar apenas na conservação de vários pequenos fragmentos: “Isso implica em ações como o fortalecimento de corredores ecológicos, restauração de vegetação nativa entre fragmentos e incentivos para a proteção de grandes extensões florestais. Além disso, políticas de uso do solo devem evitar novas fragmentações dos remanescentes florestais”. Com isso, não só a variedade de espécies fica protegida; a gama de serviços ecossistêmicos providos por essas áreas contribui para a sanidade ambiental de todos, o que é especialmente valioso no atual contexto de mudanças climáticas.

Mais questões

professor Luiz Fernando MagnagoA equipe de pesquisadores também aponta para mais perguntas a serem investigadas. Dentre as questões que a pesquisa sugere, há o ponto de como diferentes grupos taxonômicos respondem à fragmentação de formações florestais em diferentes regiões do mundo. Isso porque há espécies animais e vegetais que dependem de mais variedade e complexidade para sobreviverem, enquanto outras se adaptam a ambientes menos diversos. Sabe-se que áreas menores de floresta comportam menos espécies. O professor Luiz Fernando Magnago explica que já se tem como confirmado que a resposta à fragmentação é amplamente diferente entre grupos taxonômicos distintos e isso se deve a diferenças na ecologia, comportamento e necessidades ambientais das espécies e seus grupos evolutivos: “Por exemplo, grupos como aves e mamíferos de grande tamanho corporal podem ser mais sensíveis à fragmentação devido à necessidade de áreas maiores para forrageamento ou migração. Por outro lado, grupos como alguns insetos ou plantas podem ser mais resilientes, dependendo de sua capacidade de dispersão e adaptação. Assim, dependo do histórico de fragmentação e composição de espécies, cada região do globo pode apresentar diferentes intensidades nos efeitos da fragmentação e perda de habitat”.

Outro ponto a ser estudado diz respeito ao papel da composição funcional das espécies na resiliência aos efeitos da fragmentação. Isso quer dizer, como certos animais e vegetais estão adaptados, e se adaptam, para resistir à redução de espaço de habitats. “A composição funcional das espécies — ou seja, a diversidade de características funcionais das espécies (como tamanho, comportamento, dieta, tipo de sementes e frutos, etc.) — pode influenciar a resiliência dos ecossistemas à fragmentação. Espécies com funções ecológicas redundantes podem ajudar a mitigar os efeitos negativos da perda de espécies específicas. Por exemplo, a presença de diferentes espécies que desempenham funções semelhantes de dispersão de sementes ou controle de pragas pode ajudar a manter o funcionamento ecológico de fragmentos”, ensina o professor Magnago.

Além disso, o estudo destaca que é imperioso entender como as mudanças climáticas, em termos de regime de chuvas e de estiagem, por exemplo, interagem com a fragmentação de florestas no sentido de determinar a biodiversidade nas paisagens impactadas. Essas alterações no clima podem amplificar os efeitos da fragmentação, afetando as condições ambientais e a distribuição das espécies. O professor Magnago fornece um exemplo das diversas possibilidades de impactos: “A fauna e a flora existentes em fragmentos pequenos e isolados, que já sofrem efeitos negativos com a mudanças em seus microclimas (por exemplo, maior temperatura do ar e menos umidade do que em fragmentos grandes), devem ser menos capazes de resistirem de eventos extremos de altas temperaturas e secas prolongadas. Assim, o aumento das temperaturas, a alteração dos padrões de precipitação e eventos climáticos extremos podem exacerbar os efeitos da fragmentação, especialmente se as mudanças climáticas ocorrerem mais rapidamente do que as espécies conseguem se adaptar”. 

Para atuar nesse contexto, aponta o cientista, também se precisa saber a efetividade de estratégias distintas para restaurar a diversidade gama, isto é, a variedade total de espécies na paisagem, em áreas florestais que sofreram degradação e fragmentação. Esse conhecimento favorece a implantação de políticas públicas e projetos de restauração de modo a obter o melhor resultado possível com os recursos disponíveis. O professor Magnago indica que as estratégias de restauração podem variar em sua eficácia dependendo do contexto local, da natureza da degradação da região: “A restauração de conectividade entre fragmentos, o plantio de espécies nativas e o uso de corredores ecológicos são algumas abordagens que podem aumentar a diversidade gama em paisagens fragmentadas. No entanto, a eficácia dessas estratégias pode depender da escala, do tempo e da adequação das espécies ao ambiente local. Estudar as diferentes abordagens de restauração, bem como sua integração com o manejo de outras ameaças (como invasões biológicas e mudanças climáticas), é essencial para otimizar os esforços de conservação da biodiversidade.”

Indicações para o contexto do Sul da Bahia

cabruca ceplac 01O estudo global rende também reflexões aplicáveis para o cenário sulbaiano. No sentido de recomendações práticas, o professor Luiz Fernando Magnago destaca que a conservação de grandes blocos florestais, como aqueles presentes nas Unidades de Conservação e RPPNs, deve ser prioridade para a Mata Atlântica no Sul da Bahia. Preservar as áreas contínuas e religar as matas fragmentadas são objetivos complementares entre si:

“Estratégias de conexão entre fragmentos por meio de corredores ecológicos e restauração de matas ciliares são fundamentais para reduzir os impactos da fragmentação. Além disso, programas de incentivo a proprietários rurais para a manutenção de florestas secundárias e ações de restauração podem desempenhar um papel crucial na amplificação da conectividade entre remanescentes. Na nossa região cacaueira, muito se tem a aprender sobre o papel das cabrucas na melhoria da conectividade dos fragmentos florestais nativos, uma vez que já se é reconhecido o seu papel como habitat para várias espécies nativas da fauna e flora, além de seu potencial para prestação de serviços ecossistêmicos.”

Os projetos em andamento na região atuam nesse foco de recuperar o que se degradou e proteger as áreas contínuas. O professor Magnago destaca algumas iniciativas: “O projeto ‘Restaura Una’, por exemplo, está avaliando diferentes métodos de restauração em áreas de pastagem na Reserva Biológica de Una, com foco na recuperação de grandes áreas florestais e na promoção da conectividade. Além disso, a iniciativa da REDE PPBio Beira Mar também está trabalhando na integração de dados para subsidiar políticas de conservação e restauração na região costeira da Mata Atlântica (Restingas)”. Por Heleno Rocha Nazário / Jornalista – Mestre em Comunicação Social (PPGCOM/PUCRS) e Coordenador do Setor de Jornalismo – ACS

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