Às vésperas da Climate Week NYC, TODXS chama atenção para quem consegue se proteger dos impactos da crise e participar das oportunidades criadas pela nova economia
Quando as enchentes atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, organizações LGBTI+ relataram que pessoas trans enfrentaram discriminação em abrigos e dificuldades para acessar espaços seguros e serviços durante a emergência. O episódio colocou em evidência uma dimensão da crise climática que vai além do meio ambiente: as condições sociais e econômicas também interferem na forma como cada população atravessa um desastre e consegue reconstruir a vida.
Essa vulnerabilidade não é igual para todos. Renda, território, raça, gênero e outras condições sociais se cruzam e fazem com que pessoas negras, indígenas, quilombolas, moradores de periferias e áreas rurais, comunidades tradicionais e outros grupos enfrentem realidades distintas diante dos eventos extremos.
Para a população LGBTI+, fatores como informalidade no trabalho, dificuldade de acesso à moradia e discriminação em serviços públicos também podem ampliar essas barreiras.
A discussão ganha relevância às vésperas da Climate Week NYC, que neste ano inclui entre os eixos de sua programação justiça ambiental, financiamento e crescimento limpo. A transição justa também aparece como tema transversal do evento, com debates sobre acesso a oportunidades, resiliência e participação de diferentes grupos na nova economia. Daniel Kehl, diretor executivo da TODXS, estará em Nova York durante a Climate Week para acompanhar de perto a programação.
Para ele, essas desigualdades socioeconômicas interferem na capacidade de enfrentar os impactos da crise, elas também precisam ser consideradas na construção das soluções e na transição para uma economia de baixo carbono.
“Não dá para separar completamente a vulnerabilidade climática da realidade econômica das pessoas. Quem já encontra mais obstáculos para acessar trabalho, renda, moradia e proteção também pode ter menos recursos para enfrentar uma emergência e reconstruir a própria vida depois dela”, afirma Kehl.
As diferenças de acesso a oportunidades também aparecem no mercado de trabalho. Estudo do Banco Mundial realizado com mais de 11 mil pessoas LGBTI+ no Brasil identificou desemprego de 15,2% entre os participantes, ante 7,7% no grupo de comparação.
Ao mesmo tempo, a transição climática movimenta um volume crescente de investimentos e começa a alterar formas de produzir e trabalhar, com a criação de novos mercados, cadeias de fornecedores, negócios e ocupações. Somente o Fundo Clima aprovou R$ 12,5 bilhões em novos projetos em 2025 e tem orçamento previsto de R$ 27 bilhões para 2026.
Para a TODXS, é nesse ponto que a inclusão econômica deixa de ser uma discussão paralela à agenda climática. Além de reconhecer a população LGBTI+ entre os grupos que podem enfrentar diferentes vulnerabilidades diante da crise, é preciso considerá-la também entre aqueles que podem participar da construção das soluções e da economia que surge a partir dessa transformação.
Isso significa olhar para pessoas LGBTI+ não apenas como beneficiárias de políticas de sustentabilidade, mas como profissionais, empreendedoras, fornecedoras, criadoras de soluções e geradoras de riqueza. Na prática, essa participação passa por acesso à formação, trabalho, crédito e capital, além da possibilidade de integrar novas cadeias produtivas.
A discussão envolve o poder público, mas também o setor privado. À medida que empresas redesenham cadeias produtivas, ampliam investimentos em sustentabilidade e criam novos modelos de negócio e ocupações, existe a oportunidade de considerar desde o início a participação de grupos que historicamente encontraram mais barreiras de acesso ao mercado formal, ao empreendedorismo e ao capital.
Para a TODXS, o desafio é fazer com que uma transformação que pretende responder à crise climática não carregue para a nova economia as exclusões que já existem hoje.
“O desafio climático não é apenas reduzir emissões ou financiar novas soluções. É decidir quem terá condições de participar da economia que nascerá dessa transformação. Uma transição só será justa se as pessoas que historicamente ficaram à margem também puderem ocupar esses espaços. Não basta construir uma economia verde. É preciso garantir que ela não reproduza as mesmas desigualdades do passado”, afirma Kehl.
Sobre a TODXS
A TODXS é a maior organização sem fins lucrativos da América Latina dedicada à inclusão socioeconômica da população LGBTI+. Há dez anos, atua para ampliar o acesso a trabalho, empreendedorismo, recursos e capital, conectando pessoas, empresas e oportunidades. Nesse período, já mobilizou R$ 5,2 milhões, impactou 18 mil pessoas e fortaleceu quase 200 negócios liderados por pessoas da comunidade. Para os próximos anos, a organização tem como meta mobilizar R$ 100 milhões para empreendedores LGBTI+. Por Fernanda Paes, da assessoria da TODXS.


