Thomas More e Darcy Ribeiro em Diálogo Histórico-Filosófico

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Por Henrique Matthiesen* 

A utopia, como ideia-força da imaginação humana, nunca foi apenas uma fantasia projetada sobre o impossível. Desde sua origem, ela opera como método de crítica, mecanismo de diagnóstico e impulso de esperança, funcionando como uma lente que ilumina as fissuras da realidade e sugere caminhos para superá-las. Nesse horizonte, Thomas More e Darcy Ribeiro, separados por quatro séculos, surgem como integrantes de uma mesma linhagem intelectual, a dos que recusam o mundo como dado e o reinventam como tarefa histórica.

Ao conceber o termo utopia e dar-lhe sua primeira forma literária, Thomas More funda o gesto utópico moderno. Darcy Ribeiro, ao refazê-lo nas condições brasileiras, transforma esse gesto em ação política, projeto civilizatório e luta concreta. Entre ambos, estende-se uma ponte que atravessa tempo, geografia e cultura, sustentada por uma convicção comum: imaginar outros mundos é condição indispensável para não sucumbir ao mundo tal como ele se apresenta.

Quando More publica Utopia, em 1516, não cria apenas um lugar imaginário. Forja um instrumento filosófico de extraordinária potência crítica. Sua ilha, esse “não-lugar” que é, paradoxalmente, um lugar possível, funciona como espelho irônico lançado sobre a Europa renascentista, marcada pela desigualdade social, pelo abuso de poder, pela irracionalidade política e pela ganância institucionalizada. A obra não oferece um modelo pronto nem um projeto executável. Ao contrário, More tem plena consciência da irrealidade de sua construção. Mas é justamente essa irrealidade que lhe confere liberdade para expor, sem concessões, a nudez moral do real.

A administração comunal, a partilha do trabalho, o primado do bem comum e a racionalidade ética que organizam a ilha utópica tornam-se critérios de julgamento da sociedade concreta. Em More, a utopia não é fuga; é denúncia. Não é promessa de perfeição; é parâmetro crítico capaz de revelar o absurdo daquilo que se naturalizou como normal.

Séculos depois, Darcy Ribeiro emerge como uma figura que não apenas pensa o Brasil, mas tenta reconstruí-lo. Antropólogo, educador, político, romancista e provocador intelectual, Darcy desloca a utopia do plano da ficção para o terreno da ação histórica. Seu pensamento nasce das contradições estruturais do país: a desigualdade persistente, a exclusão social crônica, a violência contra indígenas e pobres e a dificuldade de afirmar uma identidade nacional que não fosse mera herança submissa do colonialismo.

Ao contrário de More, Darcy não projeta sua utopia numa ilha distante. Ele a ergue no próprio chão brasileiro, com seus conflitos, impasses e potências. Em O Povo Brasileiro, sintetiza uma visão radicalmente afirmativa: a mestiçagem não é um problema a ser superado, mas uma força geradora de criatividade, diversidade e reinvenção histórica. O Brasil, em sua leitura, não é uma nação incompleta; é uma civilização em gestação.

Essa utopia darciana, contudo, não permanece no plano das ideias. Ela se materializa em projetos, instituições e embates políticos. Darcy concebe a escola pública integral como eixo civilizatório; defende políticas culturais como afirmação de dignidade; combate o apagamento indígena por meio da valorização das etnias e de seus direitos; luta para que emprego, comida e escola deixem de ser promessas abstratas e se tornem fundamentos efetivos da cidadania. Sua utopia não ignora a realidade; enfrenta-a para transformá-la. É uma utopia consciente de sua incompletude e, justamente por isso, exigente em compromisso, mobilização e coragem política.

A afinidade profunda entre Thomas More e Darcy Ribeiro revela-se nessa complementaridade essencial. More oferece o gesto crítico; Darcy oferece o gesto construtivo. Um aponta a ferida; o outro busca a cura. More expõe o absurdo da ordem vigente por meio da criação de uma ordem imaginária; Darcy transforma a imaginação em programa histórico, insurgência humanista e projeto nacional. Ambos recusam a resignação. Ambos compreendem a utopia como forma de responsabilidade intelectual e moral. E ambos sabem que, sem ela, a realidade tende a degenerar na repetição indefinida da injustiça.

Num tempo marcado por crises sociais e ambientais, desigualdades extremas, brutalização cultural, descrença nas instituições e retrocessos civilizatórios, essa ponte torna-se ainda mais necessária. A utopia-espelho de More nos obriga a confrontar aquilo que nos tornamos; a utopia-projeto de Darcy nos convoca a construir aquilo que ainda não somos, mas podemos ser. Entre o diagnóstico e o sonho, entre o espelho e a obra, abre-se o espaço ético da transformação.

É nesse espaço que a utopia revela seu sentido mais profundo, não como fuga do mundo, mas como compromisso radical de torná-lo habitável, justo e verdadeiramente humano, enquanto houver quem seja capaz de imaginá-lo e disposto a lutar por ele. Por Henrique Matthiesen / Formado em Direito e Pós-Graduado em Sociologia

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