Por Robério Sulz*
Em 1963, residia em Brasília e deslocava-me a bordo de um Renault Gordini do ano. Às noites das sextas feiras, sentia saudades de minha mãe. Ainda que nem sempre, de onde estivesse, “batia proa” para BH e pegava a estrada. A maioria das vezes desacompanhadas. Não carecia de escova de dentes nem roupas. Por lá, sempre as encontrava lavadas, passadas e perfumadas. Bastava ter algum dinheiro no bolso para o combustível (naquela época ainda barato), o café com pão de queijo na estrada e outras despesas comuns de viagem. Partia de Brasília regularmente entre dez e onze da noite para chegar em BH pouco depois das seis. O rádio sintonizado na Nacional do Rio ou na Tupy de São Paulo. Música e noticiário ajudavam-me a superar o sono e passar o tempo.
Experimentei algumas surpresas nessas viagens. Mas nunca tão recheadas de emoções como certa inesquecível vez. Creio que a adrenalina descarregada sobrou até para minha mãe, preocupada com meu abraço demorado, o desassossego e a incomum insônia após longa viagem.
Como costume, completei o tanque do Gordini na saída de Brasília. Por experiência, sabia ser o combustível suficiente para chegar até o Posto Tatão, na cidade de João Pinheiro/MG. Essa fração da viagem durava menos de quatro horas, dependendo da chuva e da neblina. Portanto, lá chegara próximo das duas da manhã. Rotineiramente, parava, saltava e, enquanto reabastecia, tomava um café quente com pães de queijo recém saídos do forno que pareciam em aguardo por minha passagem. Já me tornara conhecido entre os funcionários do posto.
Viajando só, quando já me encaminhava para retomar o assento e o volante, fui abordado por um cidadão magro pouco mais alto que eu, debaixo de um chapéu de pano desgastado. Trajava paletó roto e carregava um par de galinhas pendurado em cada mão. Parecia saber meu destino. Seu sotaque lembrava desses humildes mineiros roceiros carentes de amizade. Disse ter perdido o último ônibus e estar aguardando um filho de Deus que pudesse lhe dar carona até a descida do Ribeirão das Almas, cerca de sessenta quilômetros adiante. Topei.
Colocou as galinhas de pés amarrados no piso traseiro e ocupou o assento do carona. Desliguei o rádio, já que ganhara alguém para conversar e tocamos a viagem. Ele mesmo deu início à prosa.
– Seu carro parece muito pesado na frente. É muita bagagem?
Percebi que ele entendia de carro melhor que qualquer roceiro e que seu sotaque mineiro perdera o acento e a naturalidade. Escabreado, limitei-me a um seco “não”. Mantive-me em silêncio por minutos e religuei o rádio. Ele, agora já quase sem sotaque, indagou:
– O senhor não é um representante de joia e comprador de ouro que circula aqui pela região?
Repeti o mesmo “não” dado anteriormente. Mas, milhares de hipóteses permeavam minha cabeça. Só pensava em como me livrar daquele cara aparentemente ameaçador. A descida do Ribeirão das Almas ficava a meia hora dali. Nova pergunta, desta feita, sem o menor sotaque caipira:
– O senhor não acha perigoso transportar valores sozinho durante a noite?
– Não!
Nesse momento, sentindo-me acossado, lembrei-me da chave de rodas em forma de “L” que trazia sob o banco do motorista envolvida numa flanela. Abaixei a mão peguei-a pela parte curva menor deixando-a totalmente coberta com a flanela. Reduzi a velocidade, parei numa extensão do acostamento. Apontei-lhe a falsa arma no escuro e ordenei:
– Fora! E não se faça de esperto! Desça sem fazer movimento brusco!
Quando colocou mais de meio corpo para fora, saí cantando pneu. A porta fechou com o solavanco.
Trêmulo feito vara verde, segui em frente. Nada demorou para me dar conta de ter ficado com as galinhas no carro. Serviriam de presente a minha mãe, em BH – consolei-me. O susto ainda não havia sido inteiramente superado quando me aproximava do posto da Polícia Rodoviária de Três Marias. Como se não bastasse, mais uma maçada: havia esquecido em Brasília os documentos do carro e a carteira de motorista. Elaborei rapidamente mil maneiras de como agir se parado fosse por algum agente. Já a menos de duzentos metros, optei por uma saída natural e preventiva. Liguei a seta à esquerda, reduzi a velocidade e parei mesmo antes de qualquer comando. Saltei do carro e, curvando-me com a mão na barriga, pedi para usar o sanitário. A necessidade era verdadeira, mas a urgência, nem tanto.
Minutos depois, saí fazendo ar de aliviado. Respirava ofegantemente quando um policial me indagou se estava tudo bem. Respondi positivamente, mas ainda me sentindo emocionalmente combalido em razão da tentativa de assalto a que fora vitimado. A parada ali fora providencial para refazer-me do susto. Aceitei a oferta de relaxar-me numa poltrona.
Relatei-lhes o caso, incluindo o uso da chave de rodas como suposta arma de fogo. Aconselharam-me a não viajar sozinho, muito menos, durante a noite, pois a ocorrência de assaltos na estrada estava se tornando frequente.
Perguntado, respondi que meu destino era BH. Indagaram-me se estaria com pressa ou compromisso que impedisse aguardar por meia hora.
– Sem problemas! Respondi de imediato, imaginando ser a delonga para formalizar a ocorrência. Não tardou, me pediram carona para um colega policial que deixaria o serviço dali a meia hora, indo para Sete Lagoas.
– Ora, ora, um prazer gozar da companhia policial, especialmente ante o apuro passado.
– Mas, peço um favor em troca: “que vá dirigindo, uma vez que ainda não me refiz totalmente do susto”.
No regresso a Brasília, contei com a companhia do amigo Álvaro Quaglia que assumiu o volante em meu lugar.
(*) Roberio Sulz é biólogo e biomédico pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. Pensador por opção. [email protected]