Aurélio Agostinho de Hipona, conhecido universalmente como Santo Agostinho, foi um dos mais importantes teólogos e filósofos nos primeiros séculos do Cristianismo.
Sua reflexão transcende o tempo e a fé devido à sua densidade e atemporalidade. Dentre suas reflexõesdestaco a elocução: “Prefiro aqueles que me criticam, pois me corrigem; aos que me elogiam, pois me corrompem.”
Nesta pequena citação há uma reflexão profunda correlata à uma das grandes chagas do homem: a vaidade.
A mitologia – que antecede as escolas filosóficas – traz em seu bojo a história de Narciso, filho do deus do rio, Cefiso, e da ninfa Liríope; era um jovem de uma beleza extraordinária, mas extremamente arrogante, desprezando o amor das ninfas que o desejavam. Um dia, enquanto caçava na floresta, a ninfa Eco, apaixonada por ele, o seguiu, mas foi rejeitada. Em represália, Nêmesis, deusa da vingança, fez Narciso apaixonar-se por sua própria imagem refletida na água.
Encantado consigo mesmo, Narciso não conseguia se afastar da margem do rio e definhou até a morte.No local onde jazia, nasceu uma flor, o narciso, simbolizando o amor próprio e a vaidade excessiva.
Narciso é um símbolo clássico da vaidade e do amor-próprio descomunal, frequentemente utilizado para representar a obsessão pela própria imagem e a falta de empatia pelo próximo.
Nesta passagem mitológica identificamos a gravidade da exacerbação da vaidade e suas consequências, dentre as quais a perda factual da realidade. Incontestavelmente, a essência do homem reside em sua falibilidade. Entretanto, nas hierarquias de toda espécie, a adulação, a lisonja e a bajulação ao topo contribuem para a corrupção das estruturas, e quando o narcisismo aflora nos cumes.
Além de ser desprezível tanto para o corrompido quanto para o corruptor, a vaidade obscurece a capacidade de autoavaliaçãonecrosando assim o todo ao redor.
Há uma falsa sensação de empatia, criando ciclos destrutivos que impedem a correta análise, reflexão, ajuste e aprimoramento.
Santo Agostinho, em sua sabedoria filosófica, alerta para a corrupção narcísica, aponta as armadilhas da vaidade, traz a valiosa advertência do significado da crítica sincera, construtiva e edificante.
Porém, o falsificar do encanto elogioso em bases insólitas alimenta a vaidade e a ilusão de muitosque passam a coexistir em embusteiras realidades.
Há de se vigiar, recorrigir, e se afastar dos corruptores da adulação – os seres diminutos que vivem nas sombras –, pois todo bajulador esconde grandes frustrações e incompetência, assim como todo bajulado esconde o pernicioso vício da vaidade e da inflexão. Por Henrique Matthiesen. Formado em Direto e Pós-graduado em Sociologia.