Ritinha

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Olinto e Lurdinha praticamente mandavam na Paróquia São João da Cruz, em Niterói/RJ. Além de “chaleiras de sacristia”, eram ministros da eucaristia, líderes de pastorais – inclusive a do dízimo – e de diversos outros movimentos: encontro de casais, escola catequética etc. Também eram eles que agendavam casamentos, batizados, terço itinerante da família e outros ofícios. Só não celebravam missa, mas, na falta de padre, comandavam a oração eucarística.
Em suma, mandavam mais que padre Marcelo, baiano, tranquilo e quase desligado. Recém-designado para o vicariato daquela paróquia, padre Marcelo substituía um franciscano negro, sociólogo, amigo e admirador de frei Leonardo Boff. O arcebispado não resistiu aos insistentes pedidos de Olinto e Lurdinha nem ao calhamaço de abaixo-assinados capitaneados pelos próprios.
Conheciam um por um e tin-tin-por-tin-tin os paroquianos. Sabiam se eram casados, divorciados, amasiados, programeiros, frequentes e eventuais. Pleiteavam insistentemente – sem sucesso, contudo – a autoridade de remover compulsoriamente da fila de comunhão os atrasados na confissão.
Se havia uma categoria de gente que só lhes inspirava antipatia eram os divorciados. Aqueles mais idosos de namorico ou concubinato com moçoilas – então – causavam nojo. Quando os via na missa, só lhes faltava cuspir no chão e raspar o pé em cima.
Herdeiros de imóveis, viviam – e muito bem – dos rendimentos de aluguéis. Alguns comerciais de alto valor. Tinham, pois, tempo e disposição para a devoção.
Dizem que todo esse exacerbado conservadorismo e dedicação religiosa se devia ao fato de terem uma única filha, Rita de Cássia – Ritinha, nascida com uma estranha síndrome, ainda pouco conhecida no meio médico. A criança, embora normal em suas funções mentais e fisiológicas, apresentava uma acentuada assimetria corporal. Marcantes eram seus braços e pernas direitas mais desenvolvidos que os esquerdos. Isso a tornava capenga no seu caminhar. A assimetria fazia-se presente também, porém, em menor grau, na anatomia facial.
Olinto e Lurdinha nunca mediram esforços, nem recursos, tampouco orações para corrigir a deformidade de Ritinha. Tratamentos cirúrgicos, hormonais e fisioterápicos foram buscados onde de melhor houvesse, até no exterior. Já moça, Ritinha agravou sua assimetria apresentando um seio maior que o outro. Enchimentos de sutiã resolveram a aparência até que atingisse a plenitude adulta, quando a diferença foi equalizada por cirurgia plástica. Nunca deixou de externar alegria emoldurada por sorriso franco e cativante em cútis sedosa e suave.
Contudo, a adolescência de Ritinha não foi das mais estáveis. Apesar dos admiráveis atributos, seus momentos íntimos ante o espelho eram angustiantes. Sentia-se o “patinho feio”, “a diferente”. No meio das turminhas de escola e igreja, sentia-se rejeitada. Todas as colegas arranjavam paqueras. Ela não. Quando raramente alguém lhe fazia corte, mais parecia manifestação de compaixão por sua condição física. Nem durava. Não que faltassem ostensivos gosto e paparicos de Lurdinha e Olinto para com os pretendentes.
Adulta, bem formada fisicamente, Rita ganhou uns quilinhos a mais. Isso, associado a roupas sob medida e permanentes exercícios de correção postural, ajudou a disfarçar sua assimetria. Adicionalmente, aprendeu a andar, quase sem mancar, com sapatos de saltos em tamanhos diferentes. Não mais curtia as turminhas numerosas. Preferia, para sair, um par de amigas mais velhas, colegas da faculdade de psicologia.
Foi nessas saídas vesperais que Rita conheceu Homero. Com 45 anos de idade, maneiras gentis e cavalheirescas. Bem cuidado fisicamente, cabelos semi-grisalhos e com papo reto e moderno. Parecia o príncipe encantado vindo a seu encontro sem precisar beijar sapo.
O afeto mútuo amadureceu. Homero encarou a deformidade física de Rita com extrema naturalidade e não o ponderou para assumir compromisso de tê-la como esposa e companheira. Fazia gosto ver a querência entre os dois.
E cadê coragem de apresentá-lo aos pais? Tratava-se de professor universitário de filosofia, mulato, divorciado de uma primeira mulher e separado de uma segunda. Pai de três filhos. Pouco ligado a religião, dizia crer em Deus a seu modo, sem precisar frequentar templos, nem seguir ritos. Tudo que os pais detestavam nos homens. Só faltava ser comunista. O que não estava longe da opção política do professor Homero.
Mesmo assim, a apresentação ocorreu, em meio a gagueiras e tremedeiras, de ambos os lados. Saia justa que logo se converteu baiana rodada, com estouro de champanhe e sorrisos aos montões. Afinal, Olinto e Lurdinha haviam conseguido o que sempre batalharam para sua amada filha Rita de Cássia. Vida normal e feliz como pessoa amada. O conservadorismo religioso acabou como passe de mágica. Passaram a defender o perdão aos separados e divorciados e o recasamento religioso. Outros rigores puritanos ganharam flexibilidade em suas mentes. Passaram a frequentar ambientes mais descolados. Chegaram até ao ponto de admitir alguns princípios políticos socialistas.
*Roberio Sulz é professor universitário; biólogo, biomédico (B.Sc.) pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. [email protected]