Por João Carlos de Oliveira
Estou escrevendo no dia 20 de novembro. A propósito, só se pode escrever o nome do mês com letra maiúscula se representar logradouro público ou data cívica. Usado em correspondência e como data em documento, fato comum, tem que ser escrito com letra minúscula, o que muita gente não usa. Fere a Gramática o fato de se colocar a data de um evento, digamos – 20 de Março – com letra garrafal, como muito se vê.
Essa data, então, entre outras comemorações, é dedicada à morte de Zumbi, o chefe do Quilombo dos Palmares, grupo étnico que sobreviveu a duras penas em Alagoas. Zumbi foi ofendido, maltratado e perseguido, até o dia em que conseguiram matá-lo. Por isso, a homenagem. Ele suicidou jogando-se de um penhasco? Qual é a prova historiográfica para essa hipótese?
‘DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA’. Particularmente, considero esse enunciado incompleto ou indevido. Pela semântica do objetivo da data, o enunciado deveria ser DIA DA CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O NEGRO. Ficou feio? Se tivesse sido usado antes, o de hoje é que seria estranho. O costume nos faz familiarizar com certo objeto, e estranhamos se o vemos diferente. Acostumado a ingerir cuscuz doce, o cuscuz salgado (mesmo com leve pitada de sal), que me é ótimo, pode parecer insípido para outros.
O que é consciência? Primeiro, definir, conforme o dicionário, o que é consciente, pois deste adjetivo é que se forma esse substantivo.
Consciente é aquele que tem consciência (noção de uma coisa); que tem noção do que faz. Cônscio, ciente. Aquele que sabe o que faz.
Sendo-se consciente, tem-se consciência. O que é consciência? É o conhecimento em comum. “Con” ou “co” (usado em consciência) é o mesmo elemento usado em ‘coparticipante’, compatriota, que participa em comum, que está entre outros. E o S? A palavra ciência, de nossos dias, vem da grafia latina ‘scientia’. É esse o motivo por que o Inglês usa ‘science’, que se traduz como “ciência”. Nesse caso, a consciência surgiu a partir do momento em que o especialista (filósofo, filólogo, psicanalista etc.), bem ‘consciente’, definiu que o termo se aplica a muitos elementos ao mesmo tempo, embora, mais tarde, é que se tenha dado espaço para que individualmente tivesse a sua aplicabilidade. Consciente tem a ver com co+scientia.
A consciência é a ciência dos fatos em comum. No sentido individual, é a noção da própria existência ou do mundo exterior. É a capacidade de julgar moralmente os próprios atos.
Assim, não é especificamente o negro tomar consciência de si mesmo, é muito mais tomar conhecimento do que fizeram e ainda fazem com ele. Por isso, a “conscientização” sobre o papel do negro, sobre sua importância; sobre sua história, sobre sua vivência difícil no meio em que se encontrou (tempos da Casa Grande e Senzala) e nos tempos modernos, período pós-histórico em que ainda existe muita descriminalização. A consciência não é do negro; é de todos, muito mais. Por isso, troquemo-la por CONSCIENTIZAÇÃO.
A consciência negra não é apenas o negro saber o que ele é, como pode defender-se, como pode reivindicar seus direitos; é mais saber o que fazem com o negro. Então, Dia da Conscientização sobre o Negro – uma expressão mais extensa – mas é muito mais abrangente e significativa.
Consciência é também juízo, tino, discernimento. Se for apenas mantido esse sentido, fica parecendo que somente o negro é que deve saber de si mesmo. E não é isso, ou somente isso; é o fato de que outros se conscientizem sobre o negro na sociedade, que ele não é (mais) escravo, não é para ser discriminado por causa de sua condição social ou de sua pele. Prefiro DIA DA CONSCIENTIZAÇÃO SOBRE O NEGRO, superior, muito superior a DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA.
O que é conscientizar? Primeiro, é o verbo do qual se forma o substantivo conscientização. É tomar consciência de, ter conhecimento de; dar consciência. Veja estas frases – O pai conscientizou-se da gravidade do problema (de que seu filho agora é usuário de drogas). Devemos conscientizar-nos dos problemas que vivemos no momento. O povo deve conscientizar-se da gravidade dos problemas por que o País passa na atualidade.
Consciência, portanto, é o ato ou o efeito de conscientizar-se. Na Psicanálise, como define o compêndio, a consciência é a instância psíquica dos atos e dos pensamentos, responsável pela interação do homem com o seu meio e seu mundo interno. Então, é somente o negro que deve ter consciência?
Ficam duas respostas. A que divulgam com base no enunciado para o dia 20 de novembro e a do comentário ora feito, com uma visão mais abrangente, salvo melhor juízo. Faça a pergunta – qual é a mulher mais bonita? A branca ou a negra? Tudo é relativo, mas, certamente, como parâmetro, modelo ou enraizamento do tema, vão dizer que não é a negra. Esse é um viés da conscientização que se deve ter sobre esses assuntos no Brasil.
Em Português, portanto, há diferença entre consciência e conscientização, este termo como se fosse do escopo de uma campanha.
Leia a próxima coluna.
João Carlos de Oliveira, professor jubilado, formado em Letras, com especialização em Língua Portuguesa; advogado, pós-graduado em Direito Civil, membro-correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (de Cachoeiro de Itapemirim, ES), poeta, cronista, colunista linguístico. Acesse www.clubedeautores.com.br, e adquira ‘Em cada canto’.


