Português do Dia a Dia (27 de agosto/2014)

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Honrado fico, extremamente, com os elogios do colega decano Ary Moreira Lisboa. Sua intelectualidade vai longe – atravessa todos os oceanos, desde a época camoniana, e aporta nos alforjes da cultura erudita, baiana, soteropolitana, jacobinense, nordestina, caipira, sergipana etc., o que nos admira de pleno. Parabéns pelos vetustos e enciclopédicos conhecimentos. Também o dr. Péricles de Oliveira Moreno, jovem advogado, mas já um jurisconsulto de mão cheia. Esses veem a língua pátria não como um obstáculo, mas como eterna aprendizagem, bela que é, transformadora que é; e se cometem um lapso, desculpam-se; não dizem “Acabou de chegar muitas coisas novas” nem ofendem o iletrado que articula com ênfase “Cumpadi, vamo na roça chupá u’a melencia”. Tampouco, ojerizam o conhecimento linguístico de outrem que, talvez, no momento, saiba explicar um viés inusitado da nossa Flor do Lácio. Veem que “música”, proparoxítona, pela acentuação gráfica e tônica, é um substantivo; e que “musica”, pela ausência do acento gráfico, paroxítona, é uma forma verbal, ignorada pela mídia muitas vezes, ou pelo menos por alguns doutos que condenam o ‘licuri’ do baiano, porque ‘cum nóis é assim: ou vai ou raxa’. Racha? Raxa? O que é isso, companheiro?
Estão querendo modificar, para pior, a Língua Portuguesa – dizem que no Congresso tramita um projeto pelo qual querem dizimar a presença do h em nosso idioma – o nosso agá é mudo; em alguns idiomas, tem a mesma fonética ‘silenciosa’ ou é pronunciado com o som de um R leve, não gutural como o R de ‘porta, carne, “arguém”, em muitas comunidades do interior deste País – isso é bom; trata-se do respeito que devemos ter às nossas regionalidades, ainda mais em se tratando da coloquialidade fônica de todos nós. Como você pronuncia ‘arroz’? A resposta indica a nossa variedade. Essas influências vêm do nível europeu catequizado por jesuítas e grandes escritores de outras plagas. Os dois níveis se misturam e convivem salutarmente. Deixe tudo acontecer, projetista senatorial! E pronto.
Então, nosso H é múltiplo – respeitemo-lo, deixemo-lo à vontade, como deixar o Português – laico, sacro, culto, popular – evoluir naturalmente. Escrever “oje”, por quê? Quem fica incomodado? Seria incômodo escrever ‘Helena’, e bonito ‘ambúrguer’, modificado sem motivo? Não! Vão dizer que somente alguns nomes passarão a viver sem o h; em outros, ficará… mesmo feio! Por que alterar uns e outros não?
O h circula em nosso idioma em cerca de seis mil palavras – para mais e para menos. Temos todas as origens: japonesas, hebraicas (olhe o h tão bonito!), germânicas, holandesas, latinas, e outras. Por que mudá-las se é a própria história que faz a grandeza do idioma? “Honda”, do nipônico, vai ser “onda”? As ‘ondas’ circulam pelo mar da nossa ignorância?
Prefiro a fala do anonimato à fama, à fama de fazê-la perder a sua beleza, inata, incluída a grandeza dos termos africanos e indígenas. Por que eliminar o xis – chá vai virar xá? E o Xá do Irã vai ser o quê? “Ah!…, – diriam os doutos – é que umas vão ser mudadas, outras não”?
É preciso que haja mais livros, mais bibliotecas, mais material para “alfabetizar” analfabetos funcionais, e deixar a aprendizagem fluir. Faltam-nos bons livros, bom-senso, aulas de Português no dia a dia – nos letreiros, e não na retirada de fonemas ou de letras nos falares regionais. Relembrando – fonema é o que se fala: c é cê; letra é o que se escreve – h é agá. Se querem modificar, por que não modificam “ontem” para “hontem”? Por que Michael – americano – foi tão modificado no nosso idioma? Por que seria charme?
Fiquei boquiaberto – meu neto João Vítor, três anos e uns quebrados (desculpe a citação do parentesco), disse à sua professora no ‘prezinho’ que “O semáforo é um professor de rua – ensina-nos o que as ‘pessoa’ podem e não podem fazê”. Que grandeza!
Meu conselho a todo leitor é este – fuja de aprovar essas mudanças; sua tarimba é superior a essa mediocridade de tecnocrata, de burocrata; de quem quer impor mudança no Português pela “hordem” inversa – que nasça do simples, da coloquialidade, do falar regional.
Vão mudar o “hot dog” americano? Há muitas palavras com h vindas de outros idiomas, além dos já citados; até do aramaico – idioma de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eu serei “hum novo omem”? Nosso ‘ABITAT’ linguístico está morando em areia movediça? Como vão ficar os termos da música estrangeira? Do esporte? “Handebol” vai virar ‘andebol’? O que é isso? O anglo-saxão tem contribuição enorme para nosso idioma – Helen – vai virar Elen?
É preferível dizer que “pontiagudo”, nascido de ‘ponta aguda’, formou uma aglutinação na nossa fala, como pernilongo; assim como ‘ponteagudo’, agora justaposto (sem alterar fonemas), tem a mesma grandeza de ‘pernalonga’, embora possa mudar de significado. Isso é bom.
Estou falando de possível mudança ortográfica na Língua Portuguesa, por isso essa ironia – quero um mundo de ideias contra essa aberração. Querem até tirar o U de guerra. Coitadas de nossas crianças.
Excelência? Não, leitor, ‘eselencia’. Nada mais. Voltarei a falar do assunto, citando exemplos de possíveis novas grafias.

João Carlos de Oliveira, professor jubilado, formado em Letras, com especialização em Língua Portuguesa; advogado, pós-graduado em Direito Civil, membro-correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (de Cachoeiro de Itapemirim, ES), poeta, cronista, colunista linguístico. Acesse www.clubedeautores.com.br, e adquira ‘Em cada canto’.