Seria ideal começar a coluna de hoje, como variável introdução, com frases belas ou de efeito?
Vamos optar por essa saída: “Eu me vejo repaginando o que já foi feito. A vida é cíclica. É estúpido pensar que o que passou não vale mais nada”, Marcelo Jeneci, cantor e compositor, em entrevista ao Caderno Dois de A Gazeta, do ES. Sim, o passado nos importa muito e reconstrói nossos passos. Não vale o argumento de que “Quem vive de passado é museu”. Temos de aprender com o que fizemos ou deixamos de fazer.
“A simples palmada não é o vilão; o que é prejudicial é o descontrole emocional dos pais, a prepotência, o autoritarismo exacerbado, o descontar nas crianças a raiva e as frustrações”, Marilena Soneghet, cronista, jornalista e escritora capixaba, autora de excelentes artigos, em um em que comenta a questão da lei da palmada, que seria um retrocesso na educação dos pimpolhos.
Um dizer popular, que circula em abundância por aí, diz o seguinte: “Para os amigos não explique, porque eles não precisam; para os inimigos também não, porque eles não vão acreditar”, quando nos envolvemos em algo delicado – isto é – os amigos aceitam nossa falha ou têm que não cometemos o erro com intenção, e os do contra nunca vão acreditar em nós, motivo que não adianta explicar-lhes o acontecido. Faz sentido.
Algumas palavras são curiosas. A gente pensa que as estaria usando em sentido próprio, mas às vezes nos deparamos, sem perceber, com uma metáfora de todo tamanho em outro contexto. Isso conscientemente nos ajuda, e de forma desavisada pode-nos prejudicar a linguagem. Podemos ser traídos pela inocência.
“A bateria do carro pifou. Vá comprar outra.” Trata-se de seu sentido comum. Mas se você disser “Você quer recarregar sua bateria?”, isso nos pode levar a muitas análises. Todo cuidado é pouco, porque a maldade pode-nos entender de forma errada.
“O carro rodopiou num ângulo de 90 graus, por isso tombou”, seria uma justificativa para o desastre com o veículo. Já a frase “A mulher foi colocada num ângulo de 90 graus” teria outra visão senão a de que naquela posição a foto seria mais perfeita? Não pense em outra coisa…
“A porta de sua casa está aberta”, alerta o vizinho ao outro, distraído, ajudando-o para não ter surpresas mais tarde. Mas a frase “Sua vida tem uma porta aberta” pode-nos conduzir a um punhado de ideias, de boas a ruins; fiquemos com as boas.
“A cena do filme é de tamanha realidade, que acreditamos em tudo que vimos.” Seria a paisagem, o ambiente, e de forma fictícia, na chamada ficção científica, essa cena pode ser brutal, falsa, repugnante. “Você fez uma cena de artista”, agora já seria o fingimento que tomou conta de sua face; já seria a falsidade que impregna (“im-prég-na”) sua face de artista fingidor. A cena na cama, a cena de um corpo esfacelado, a cena de um corte como crime ou como matança de animais. Pense em outros casos. Pode doer sua visão.
“Santos Dumont inventou o avião”, como diz a História. “Você, como dono de perfeita perfídia, inventa a face de sua história, portanto, você é um mentiroso”. O que é inventar? Cuidado, que o verbo é maldoso.
“Um chinelo de dedos custa uma bagatela”, isto é, é muito barato, mas depende muito do poder aquisitivo do comprador. Entretanto, esse termo, na época em que o Banco Econômico aqui na Bahia entrou em bancarrota, disseram os jornais que o famigerado prestador de serviço à comunidade “Deixou um rombo de uma bagatela de R$ 400 milhões de reais”. Bagatela agora é coisa grandiosa. Que mudança uma palavra sofre de uma hora para outra, hein, companheiro! É quase inacreditável isso.
Coluna anterior: A expressão “em até…” (Parcelas em até dez vezes), muito usada no comércio, seria um vício de linguagem? Decida. Não a vejo como tão notória para ser repetida como vem sendo. Resposta: Muito usada no comércio, a expressão (prepositiva) “em até” é redundante e desnecessária. Viciosa, mas continua em circulação. Use uma preposição de cada vez – Paguei (a dívida) com o cartão em duas parcelas. Parcele (a compra) com o cartão até 10 vezes. Essa redação é correta e suficiente para dizer o que querem com relação a essas situações.
Pegadinha: Você escreve “biquíni, biquine ou Bikini”. Quando é que se pode escrever essa palavra com letra maiúscula? Continue: como você escreve “multi-uso ou multiuso, multiinstrumentista ou multi-instrumentista, anti-herói, antiherói ou antierói”?
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Divulgação dos livros de João Carlos


