Português do Dia a Dia

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Você “estarta”? A brincadeira serve de introdução para lembrar que há brasileiros criando neologismos estranhos, sem o menor nexo com a Semântica. O recurso gramatical de criar novos vocábulos é comum e necessário, servindo de apoio à fala popular e à criatividade poética. Sem exagero, sua vida é longa e mostra que o idioma é dinâmico, jamais estático, o que corrobora o fato de a língua passar por constantes mudanças.

Manuel Bandeira, recifense ultraconhecido, gostava de suas invenções linguísticas e poéticas, e criou o verbo “teadorar”, já que se diz em abundância “Eu te adoro”. Fez bem, só que não pegou nem se tornou conhecido do público menos leitor de textos assim tão exóticos. Cheguei a criar, por sonoridade, em uma poesia os termos Râneca, para uma cadela, e Chibelar, para o conhecido lápis que se usa em escola.

A escritora capixaba Sônia Rita Sancio Lóra, no texto “Saudade, Medo e muito Humor!”, publicado em Pensar, caderno cultural-filosófico de A Gazeta, de 24/04/12, registrou crítica e sabiamente: “De novo na tela, sem um molar para amolar, descubro uma nova palavra na Flor do Lácio. Estarte. Um híbrido do português estar (permanecer) com o Inglês start (começar). Tudo agora vem embalado em um tal de “Vou estarte ligando”, “Vou estarte chamando”, ou “Vou estarte informando”. Ela ainda completa: “Trata-se de um devir, algo que vai de lugar nenhum a lugar nem outro. Nada permanece e começa no mesmo movimento. Somos fantasmas de todos os próximos segundos. E dos que ficaram para trás. No momento atomizado de um instante, coloco o estarte. Lá no fundo. Acendo um lume no meio da madrugada insone. (…)”

É linda sua fala, sua análise, profunda com muito dizer do pouco dizer “Vou estarte…”, cuja sequência é enjoativa (a fala desmedida do vício, entenda-se), típica de falantes exibicionistas (perdoe-me o leitor), aqueles que querem falar “bonito” sem nada dizer. Trata-se, portanto, de um vício de linguagem “morto no tempo”. Eis o famigerado gerundismo. Não se trata de gerúndio – Estou chegando agora, Estou trabalhando na fábrica de vassouras. Quer dizer, o falante está chegando ao local a que se destina, fato que avisa a alguém, e no segundo enunciado insinua que, ultimamente, exerce essa função na fábrica de vassouras. Tem sentido. Fora disso, é pura vanglória.

Ninguém ensinou isso a alunos, nenhum professor disse “Fulano, use esse modelito em seu texto. Pede-se atenção ao modelo de uma carta, de um ofício, de um requerimento, mas poucos os querem ou aceitam. Essa fala redundante, como se você ficasse a vida inteira “Vou estarte recebendo em minha casa”, foi aprendida de ouvido, no meio da rua, porque se ouviu dizer, porque em uma palestra alguém usou esse disparate e outros o copiaram.

É uma pena.

O Inglês, como disse a escritora, é dono do termo “to start”, o mesmo que “to begin” (começar), que gera também o substantivo “start”, usado para indicar dispositivo eletroeletrônico – a partida (não é como a alavanca que acionava o motor do veículo antigo).  Mas se tornou um abuso.

Repitamos alguns exemplos, que o leitor consciente deve evitar – aliás, é de bom sentido evitar-se apenas aquilo que se conhece. Faz sentido também o contrário: como evitar aquilo que se desconhece? Então, não use “Vou estar te avisando, vou estar te atendendo, vou estar te mandando um e-mail, vou estar te pedindo, vou estar te falando”. E outros, outros tantos. Aliás, seria até poético, se você tem intimidade com a pessoa com quem fala, falar-lhe “Vou estar-te amando para o resto de minha vida”. Amar-te-ei para sempre. Amar a ti é como se fosse para toda a minha vida. Fora disso, é uma bobagem, perda de tempo. Mas será que esse falante conhece essa regra – “estar-te” – verbo, hífen, pronome, em que “te” que equivale a “a ti”, e que essa ideia de continuidade pode existir. “Estar-te mandando um e-mail” seria lógico se você mandasse um e-mail por muitos e muitos anos para uma pessoa. Que lógica!

A linguagem evolui, mas não de forma segura, através de leitura, de conhecimentos basilares da Gramática Normativa. Só de ouvir dizer, só de imitar. Essa evolução é ruim.

“Tipo assim… Você entendeu? Tipo assim… Ele pode “vim” amanhã, e aí Vou estar te comunicando…”

Foi possível entender o recado, “magnânimo leitor?” (como diz uma escritora para a parte entre aspas…)

Coluna anterior: Diga se “onde” está bem empregado na frase “A sociedade que utiliza a razão como este modelo mental é uma sociedade onde a emoção fica em segundo plano”.  E ainda: autoajuda ou auto-ajuda? Auto-escola ou autoescola? Resposta: “Onde”, advérbio de lugar, deve ser usado com a ideia de lugar fixo, em que… se dorme (na cama), se come (à mesa), se trabalha (na loja, na fábrica). A casa onde moro é fria. Como se dizer que “é uma sociedade onde a emoção…”? Sociedade aqui é cultura, visão, comportamento, portanto, no lugar de “onde” cabe apenas “em que…” Autoajuda, sem hífen, na ortografia atual, cujas vogais (o, de auto; a, de ajuda) são diferentes. Autoescola.

Pegadinha: Diferencie “destorcida” e “distorcida”. Como você entende? Quer exemplos? A corda foi destorcida. Sua análise sobre a opinião do professor ficou distorcida. A partir desses enunciados, estabeleça os parâmetros.

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