Português do Dia a Dia (03 de fevereiro/2013)

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Com a frase “Dá uma passadinha lá e confira” tento responder a um leitor, paulistano, paulista ou carioca, que fez uma consulta ao sítio deste jornal. A honra de sermos lidos tão longinquamente é nossa, e nos sentimos engrandecidos e satisfeitos. Não brilhamos como o Sol, mas acendemos uma luz, que seja pequena – de asteroide passar-se-á a astro, no futuro.

A escola não está dando conta de ensinar à estudantada a maneira correta de se usarem os imperativos afirmativo e imperativo. Misturam tudo, e ninguém, pelo que se percebe, aceita que a mistura de tratamento implica o mau uso do verbo no Brasil. Se se chega ao ponto de se falar “Há o que haver”, nada mais se teria a comentar. Haja o que houver. Mas vamos tentar.

Deve ser: Dê uma passadinha lá e confira – em se tratando da pessoa você, forma popular no uso do idioma pátrio. Que eu dê, que você dê – esse mesmo presente do subjuntivo serve para formar o imperativo, afirmativo ou negativo, para a pessoa você. “Dá” seria para a pessoa tu: Dá uma passadinha lá e confere. Confere? Sim. Eu dou, tu dás – tira-se o esse desse presente do indicativo para formar o imperativo afirmativo para a pessoa tu, como Dai um passo à frente (vós). Eu dou, tu dás, vós dais. Foi suprimido o mesmo esse para a segunda pessoa do plural.

Nesse caso, são corretas estas formas – Dá… confere (tu conferes – tire o famigerado esse), desde que a sequência do enunciado seja para a pessoa tu, segunda pessoa do singular. Dê… confira, desde que a sequência seja para a pessoa você. Vá lá e traga – você. Vai lá e tragas – tu. Vá lá e me tragas o dinheiro: há a mistura de pessoas (tu e você) na mesma frase, o que se constitui em erro. Dê uma olhada – você. Dá uma olhada – tu.

O leitor pergunta se é certo “Festeja” ou “festeje”. Ambas as formas, a depender do modo como se trata o ouvinte. Eu festejo, tu festejas – menos o “s”. Festeja o teu aniversário. Tu és uma pessoa merecedora. Que eu festeje, que você festeje. Festeje o seu aniversário. Você é uma pessoa merecedora.

Leitor: se disse, “há algum tempo”, que o certo seria “Festeje” é porque a propaganda teria feito a mistura. Usou “festeja” e depois deve ter dito “você”. Festeja tu, porque tu és merecedor. Festeje você, porque você é merecedor. Infelizmente, temos que dizer que muitos misturam as pessoas verbais, como a nobre Caixa Econômica usa, misturando o tratamento, “Vem para a Caixa você também”, com uma rima perfeita. Dizem os entendidos que essa musiquinha foi patenteada por essa Estatal e que ninguém deve copiá-la ou imitá-la. Até aí tudo bem, mas em Português seria “Venha para a Caixa você também”. Então, acabou a rima. Acabou a graça. A transgressão, uma liberdade poética, e de expressão, compensou o desatino linguístico. A não ser que fosse – Vem para a Caixa tu também. Assim, não se sabe que o nível de linguagem estaria apropriado ao leitor, ou ouvinte, que é o cliente bancário – seria muito íntimo ou distante? “Tu” é um tratamento poético. “Eu te amo”, falando-se a uma senhora seria ousada intimidade. No máximo – Eu a amo, com deferência. Eu a venero. Para a namorada, “Eu te amo” é algo pomposo. Concorda? “Faz um 21” deveria ser “Faça um 21”. Mas parece que fica longo, longe… Transgredir, assim, é uma modernidade, que gera dividendo. Fica marcado. Compre batom, compre batom.

A outra pergunta: o ideal é que se diga “Está em férias”, como se está “em greve”, como O mundo está em atividade, em perfeita harmonia, como o bombeiro está em ação para combater o incêndio. E quanto a “de férias” ou “das férias”, tanto faz. Apenas, o termo é tomado em sentido determinado ou indeterminado. Pense comigo – Desejo-lhe as mais felizes férias. É algo amplo, forte, com ênfase ao fato, do qual tenho conhecimento “que você está em férias” nesse período. Ele chegou “de férias passadas no Uruguai”, as que não posso determinar. O educandário recebe alunos de 5ª. a 6ª. séries. Isso denota um sentido vago, longe. O educandário recebe alunos da 5ª. à 8ª. séries. Agora parece algo mais claro, inclusive permitindo o uso da crase. De 5ª. a série – note – não ampara o uso da crase. Da 5ª. à 6ª. séries – agora, sim, o uso da crase está perfeito.

Essa é a minha visão. E que tenho ainda que aprender um pouco pelo menos com o leitor, como você, meu amigo. Um abraço a todos.

Acesse: www.clubedeautores.com.br. Conheça e adquira a obra EM CADA CANTO, o mais novo livro de poesia do professor João Carlos de Oliveira. Vem aí “Colóquio com o silêncio”.

 

1 COMENTÁRIO

  1. Olá professor!
    Você se sente honrado pelo fato de sua página está sendo acessada por pessoas no RJ ou SP, pois saiba que apesar de eu ser da Bahia eu também estou tão longe quanto eles – sou de Salvador. Eu já lia suas matérias há muitos anos na página impressa,bem antes do Alerta está disponível online (na verdade tomei conhecimento do “on line” há pouco tempo). Têm muitas dicas e observações da sua parte que precisam ser repetidas na página virtual.
    Na verdade professor, te escrevo mesmo para lhe convidar a fazer parte de uma comunidade sobre a Língua Portuguesa na rede social do google: o g+.
    Sentir-me-ei honrado tendo em nossa comunidade uma pessoa de tão grande conhecimento de Língua Portuguesa. Para entrar nessa rede social basta que você tenha uma conta de email no google, o resto eu explico depois.
    Por favor, aceite o convite.Você será de grande ajuda com suas dicas e observações, podendo também tirar dúvidas dos membros de lá.
    Fico na expectativa de sua resposta [email protected]
    Caso você aceite o convite talvez seja útil conversarmos por por telefone, tenho tim e claro.
    Grato!

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