Português do Dia a Dia (02 de julho/2014)

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O comentário anterior tratou de dizer alguma coisa sobre o elemento hexa, do Grego hex (seis), no momento muito usado em virtude da Copa do Mundo de Futebol. Faltou-me citar certos exemplos que estão no dicionário – hexaedro (poliedro de seis lados), hexafilo (que tem seis folhas), hexacampeão, hexacampeonato, hexacoco (fruto com seis lojas), hexacordo (instrumento musical com seis cordas) e hexacosaedro (poliedro de vinte e seis lados!), entre outros; e um que vem sendo usado em fôlderes e panfletos – hexagarantia (criatividade de uma montadora de automóveis), que é uma bela metáfora. Podemos criar os nossos neologismos: Seu hexavadio, saia daqui! Venha conhecer nossa hexapromoção sem juros (diria aquele comerciante). Moro numa casa que tem um hexacanto no oitão. Às vezes, tenho uma hexadúvida quanto ao uso dos prefixos, mas vou em frente. Financiei o veículo num hexapagamento. Basta…
Vamos ao comentário de hoje. Fico mil vezes a pensar por que algumas empresas usam em documento que comprova a participação de um aprendiz em curso o dizer “Estágio com carga horária de 40 horas”. Note, claramente, a redundância ‘horária – horas’. Como resolver isso para que se evite o pleonasmo? Há dois caminhos: (1) retirar o adjetivo horária – Estágio com carga de 40 horas. Não ficou claro o tempo de duração do curso?; (2) usar um termo que dê a ideia do tempo do curso, seguido do que se quer declarar – Estágio com duração de 40 horas. Mas não fazem isso! Parece que, em certa época, as escolas e até secretarias estaduais e municipais de educação usavam, ou ainda usam, a expressão ‘carga horária de … horas’, e todo mundo passou a repeti-la. Uma empresa conceituada, ou alguém que sabe o que escreve, não tem que repetir uma expressão (alheia), (1) por que contém ou pode conter erro; (2) por que, sendo boa, estaria havendo plágio da criatividade de um ente público ou privado.
Então, ao ver essa repetição – ‘carga horária de … horas’ –, transfiro logo meu pensamento para uma repórter que usou “a faixa etária de idade é acima de quatorze anos”. Assim, a hemorragia de sangue é ótima. Correto fica o camponês que usa ‘a verme’ – só conhece o termo da oralidade (por que não sabe escrever), e o associa a outros, cuja classificação gramatical também desconhece. Verme é masculino (o verme). Não sabe se é substantivo feminino ou masculino. Confunde-o com a derme, que realmente é palavra feminina. Fica em dúvida se usaria a-o germe, o-a epiderme. Assim como há, o telefonema (cujo gênero (feminino) costuma ser confundido para o feminino), o fonema, o estratagema, mas… a gema.
A oralidade nos engana, justamente por ser flexível, maleável, livre, com menos apego à Gramática. Note isto ao analisar esta expressão encontrada numa parede – “Seu odário! Babaca” – indicando que alguém foi rechaçado por dormir debaixo de uma marquise. O que se pensa? Que as consoantes bilabiais, fricativas e palatais são traiçoeiras – todo cuidado é pouco, e para quem apenas ‘fala’ o idioma, o dobro do cuidado é ainda pouco para dizer que causa engano ou lapso. Facilmente, como uma dislexia, troca-se faca por vaca; podre por pobre, torto por tordo, paca por baca, broca por troca, ficar por bicar, e outros. Odário, pela mensagem da bronca, seria otário. Assim, não se sabe quem é mais babaca que o outro. Ainda bem que o ‘escritor’ usou um sinônimo na sua mensagem.
É cuidadoso e pertinente o estudante ter cuidado com alguns sufixos e deles tirar conhecimento linguístico e histórico. Saponáceo – com a terminação ceo – vem de sabão. Então, siga a sequência: sebo – sebáceo, galinha – galináceo, farinha – farináceo. Muitos supermercados usam uma plaqueta indicando onde ficam certos produtos, acontece, porém, de forma desavisada, que aparece com frequência a grafia ‘farinácio’, que não está correta. A terminação cio existe em outros derivados, como macio, sério, contrário.
Fique atento para a terminação eo – aéreo, etéreo, homogêneo, térreo, humanídeo, canídeo, cervídeo, áureo, crustáceo, córneo, terráqueo. Cuidado: miscelânea! Não confunda com termos que têm io – crânio, vício, suplício, comício, suplício, fenício, prepúcio, comércio, palácio, cardinalício.
Já encontrei lipídio – que contém gordura – e lipídeo; no entanto, o dicionário não registra como variante gráfica – cota ou quota, cotidiano ou quotidiano. Consulte, agora, se você o encontra com io ou eo: lipídio ou lipídeo. Um abraço.

João Carlos de Oliveira, professor jubilado, formado em Letras, com especialização em Língua Portuguesa; advogado, pós-graduado em Direito Civil, membro-correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (de Cachoeiro de Itapemirim, ES), poeta, cronista, colunista linguístico. Acesse www.clubedeautores.com.br, e adquira ‘Em cada canto’.