Por uma campanha limpa

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A campanha eleitoral entrou na reta final. Recebe, daqui até as eleições, o aporte da propaganda no rádio e na televisão. Muita gente não gosta desses programas, com razão. Retira-se de casa, vai prosear com amigos ou passear com as crianças. Salvo raras exceções, os programas representam uma chatice, uma embolorada mesmice. Passa anos e nada de novo. A cada edição ficam mais pobres em criatividade e motivação. Foram instituídos certamente para provocar reflexão e exercício racional. Para ajudar o ouvinte e telespectador a formar e adotar melhor juízo na opção de voto. Mas, estão longe desse caminho. Formulam-se como uma xaroposa ladainha de frouxas promessas que todo mundo sabe de antemão que não serão cumpridas. O segmento voltado para a campanha dos deputados, na TV, é de causar tédio tristeza. Mais parece um folhear de páginas de catálogos de rostos envolvidos com a criminalidade. Para quem vai ao rancho pensando em comer milho verde, corre o risco de só achar sabugo.
Contudo, isso não impede de a mídia fazer sua festa. Aproveita a ocasião para expor ao máximo seus funcionários, repórteres e comentaristas. Transforma-os em pretensos arautos da política. Em influentes orientadores do voto certo. Na maioria das vezes, não passam de descarados cabos eleitorais. Alguns, para acentuar suas gabarolices, lembram, em suas entrevistas, os inquisidores dos Inquéritos Policiais Militares – IPMs, da época da ditadura. Tripudiam sobre os interlocutores. Abusam de falsas verdades plantadas pela própria mídia como pressupostos para embasar suas indagações. Bem ao estilo dos interrogatórios praticados nas cadeias e nos antros da bandidagem, usam o limite de tempo como ameaça e ferramenta de tortura.
Não é de hoje que se sabe da pretensão da mídia em assumir o comando do processo de escolha política. As pesquisas de intenção de voto proliferam como moscas no lixo. Cada uma com o viés que lhe interessa. Encomendadas e patrocinadas pela mídia, são divulgadas como coisa séria, como resultados eleitorais antecipados.
Incrivelmente, tem gente que duvida da seriedade das urnas eletrônicas, cercadas de inúmeros controles, inclusive, com o aval do Poder Judiciário. Mas, acredita piamente na pesquisa de intenção de votos, feita por indagador sem forte comprometimento com a lisura do dado obtido. Basta que ela indique seu candidato em vantagem.
As emissoras e redações evoluem de comitês eleitorais para quartéis do jogo sujo, centrais de fofoca, com gente especializada em garimpar malfeitos e eventuais deslizes morais de candidatos, quando comparados farisaicamente com tábuas de puritanismo absoluto. Nessa linha, não faltam traições de alcova, renúncia de gênero, filhos bastardos, cheque devolvido, pileque na igreja etc. Tudo que possa escandalizar o adversário é buscado à exaustão por um contingente de malandros, a soldo do grupo que sustenta a mídia.
Somam-se na memória do eleitor brasileiro mais vivido casos e mais casos de armações de arapucas midiáticas para candidatos escalados à derrota. Jamais será esquecido, por exemplo, certo confronto na TV entre presidenciáveis que, além de surpresas para atordoar “ao vivo” o desavisado adversário, posteriormente foi editada uma versão do debate totalmente enviesada para favorecer o candidato preferido da emissora.
É por aí que a disputa política escapa às saudáveis regras de convivência social. Os comitês eleitorais tomam jeito de caldeirão da ira. Por lá, odiar, xingar, provocar e ameaçar o adversário passa a ser mais importante que querer bem, elogiar e afagar seu próprio candidato.
Bom seria se os eleitores pudessem fazer suas escolhas considerando as diretrizes políticas de cada candidato, colocadas com firmeza e precisão. As prioridades, viabilidade de consecução dos programas de gestão. Tudo com absoluta clareza e detalhamento de ações. Melhor ainda se os programas apresentados na campanha eleitoral dos candidatos eleitos pudessem ser auditados livremente pela população quanto a sua coerência ideológica, ao gradiente de prioridades, aos efeitos sociais etc. Seu descumprimento daria razão para impedimento à continuidade do gestor no cargo.
Com isso, talvez tivéssemos fortalecimento do partido político também como estrutura de competência gestora, abrindo espaço para governos de coalizão, sem perder sua natureza de agremiação ideológica, ao conservar seu poder de definir prioridades e processos políticos de gestão.
Os partidos políticos não perderiam sua característica corporativa, mas certamente, seriam aliviados da perniciosa similaridade que carregam com seitas religiosas e clubes sociais.
Do jeito que vai, a cada eleição teremos inaugurada uma triste temporada em que se considera o “mal” como referência para saber quem é pior.
*Roberio Sulz é professor universitário; biólogo, biomédico (B.Sc.) pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. [email protected]