Sob nova direção, o PCC elimina dissidentes e desafetos e implanta o terror para afastar ambiciosos
Agora, além de tudo isso, aquele que poderia ser um paciente de terapia, sofre também pelo poder que já teve e atualmente se esvai. Distante dos principais palcos de acontecimentos criminais, ficou muito difícil dar ordens de dentro para fora e de fora para dentro. Criou-se um vácuo profundo, causa fundamental para a guerra fratricida dentro da organização criminosa Primeiro Comando da Capital, já transformada em poderosa empresa, estilo mafioso, que domina setores do crime e possui dinheiro para adquirir casas, apartamentos, veículos, postos de combustíveis, abrir contas em nome de laranjas e, mais recentemente, mandar dinheiro, criptomoedas inclusive, para seus paraísos fiscais particulares.
Marcola: o poder se esvai de um homem derrotado pelo cansaço. PAULO LIEBERT/08.06.2006/ESTADÃO CONTEÚDO
Assumir o poder dentro do PCC, então, tornou-se importante em termos de status, monopólio das principais atividades à margem da lei e controle de verdadeiras fortunas, que são remetidas para o exterior ou ficam por aqui mesmo, em forma de investimentos por meio de lavagem de dinheiro. O PCC tornou-se a um poderoso grupo financeiro empreendedor.
A era pós-Marcola começa por razões cuidadosamente analisadas. A principal é que a repressão sistemática ao crime organizado se desmembrou. É feita por vários órgãos diferentes, incluída aí a Polícia Federal. Não se tornou mais possível conceber que o PCC tenha um comando único, não compartimentado. Portanto, adeus chefão e salve os novos chefões.
A fórmula foi testada, com êxito, na fronteira Brasil-Paraguai, onde uma guerra sangrenta na região de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero terminou com uma chefia única que imperava há décadas, sob o comando de Jamil Fuad.
A sequência está sendo registrada em São Paulo, por razões ainda ignoradas na zona leste da Capital. Essa competição tem cara, nomes e apelidos, ignorados pelo grande público, mas muito significativos dentro da organização. Cada um deles tem significado e uma história.
É o caso de Anselmo Fausta, o “Cara Preta”, e Antonio Corona Neto, o “Sem Sangue”. Ambos foram fuzilados dentro de um automóvel, no bairro do Tatuapé. Os autores ainda são ignorados, mas a motivação não. Isso quer dizer que a chamada “inteligência” investigativa caminha até certo ponto e cessa quando surge um obstáculo até aqui intransponível. “Cara Preta” ganhou 25 milhões de reais participando de um bolão da megasena. Poderia aposentar-se. Mesmo assim, fez o que para o PCC é imperdoável: sumiu com R$ 200 milhões que teriam de ser remetidos para o exterior e não foram. A organização, que passou a ter tesoureiros e contadores, detectou o desfalque e a sentença de morte foi emitida.
As reações para o duplo assassinato foram diferentes: “Cara Preta” e “Sem Sangue” tinham seus comparsas, sedentos pelo lucro ilícito, que na sociedade normal é chamado de apropriação indébita. Concorrentes decidiram matar, em represália, os envolvidos na execução da dupla. Assim é que apareceram duas cabeças humanas cortadas, de novo no Tatuapé. O resto desses corpos foram encontrados enterrados em Suzano. Junto a uma das cabeças, estava um bilhete esclarecedor: uma das cabeça decepadas seria um “pilantra”, responsável direto pelas mortes de “Cara Preta” e “Sem Sangue”. Logo depois, foi a vez de “Django”, executado com tiros de pistola.
Esse estilo de matar é adotado pelo PCC como uma forma de advertência e intimidação. É como se cada assassinato tivesse uma espécie de assinatura – clara para os executores e enigmática para quem apenas viu os corpos.
É o caso das cabeças cortadas. Querem dizer, dentro dos objetivos e punições consideradas exemplares dentro do PCC, a extirpação do mal, ou seja, cortar o mal pela raiz. Há casos em que olhos são vazados, lábios dilacerados e bocas encontradas com cadeados.
A série interminável de mortes impressiona. Enquanto isso, na Papuda, o ex-chefão Marcola é informado, com atraso, de tudo isso. Sabe que mortes foram decretadas à sua revelia. Não mais possui o controle absoluto. Percebe, na distância do planalto para a planície, que sua era se esgotou: o PCC está sob novas direções.
Num país em que criminosos rapidamente são soltos, firulas técnicas gestam habeas-corpus e nas teias jurídicas pequenos insetos ficam presos, mas os grandes sempre rompem-nas sem custo, criaram-se duas irônicas novas teses no campo do Direito Penal: a absolvição, proporcionada mesmo com excesso de provas, e o roubo em grande escala, suficiente, entretanto, para demonstrar inocência.
Isso acontece porque não se pensa na lei como defesa do mais fraco, no caso a sociedade, contra o mais forte, o bandido. Atalhos e vicinas jurídicas fazem com que nasçam verdadeiras gaiolas de aprisionamento (ideológicas, inclusive). É a realidade vista apenas com olhos benevolentes pelos autodenominados “escravos da lei” – lei, na verdade, que não aprisiona a ninguém.
A prova vem do próprio Marcola. Bandidos, como ele, nunca ficam presos por tanto tempo. Mas, nesse caso, o ex-chefão foi o mandante do assassinato do juiz Antonio Machado Dias, em 2003, fuzilado quando saia do Fórum em Presidente Prudente. O juiz era o titular da Vara de Execuções Penais na região onde estão estabelecimentos penais de segurança máxima. Aí, a Justiça não está se esquecendo da morte do magistrado e a mesma lei que seria condescendente com outros marginais é implacável, e bem aplicada, com Marcola.
Aliás, o próprio Marcola não perdoou quando sua mulher, a advogada Ana Maria Olivatto, foi assassinada em 2002 e seus executores rapidamente mortos. Os dois haviam se casado na penitenciária de Araraquara.
Hoje, o PCC consegue remeter toneladas de cocaína para o exterior e fatura milhões, o que lhe proporciona avaliar qual a melhor forma de investir e lavar bem branco o dinheiro sujo. Curiosamente, as autoridades parecem saber de tudo sobre o bando organizado: nomes, bases de atuação, pontos de remessa a chegada, cronograma organizacionais, investimento e lucros. Mesmo assim, entretanto, mostram-se impotentes. Talvez porque, além de tudo, o PCC se infiltra, com muitos tentáculos, por toda parte, algumas surpreendentes. A organização parece pensar em tudo, projeta o futuro, controla o presente, elimina dissidentes e desafetos, implanta o terror para afastar ambiciosos e se comporta como artífice de novos conceitos de honra e ética. Disseminar o mal, acreditam, seria necessário para uma profilaxia interna. Assim está se comportando o PCC sob nova direção. Por Percival de Souza, da Record TV