Como o sexo passou para baixo na lista de prioridades da vida

É o seguinte: o mundo em que muitos de nós crescemos desapareceu, e não por causa da geopolítica. Por causa do sexo.
Não, isso não é uma confissão pessoal. É uma observação sobre cultura. O sexo, antes tratado como central para a vida moderna, está recuando silenciosamente. E a mudança é tão ampla que nos diz algo desconfortável sobre para onde a sociedade foi.
Cresci nos anos 1990, quando o sexo estava por toda parte. Não apenas na vida privada, mas no espaço público. A propaganda funcionava com a fórmula que o sexo vende. Alguns produtos logicamente se prestavam a imagens eróticas; outros não. Ainda assim, um corpo feminino sexualizado poderia ser usado para vender quase qualquer coisa, inclusive um copo d’água. Jornais, revistas de carros, até publicações sobre o paranormal publicavam ensaios fotográficos nus. A televisão, muito antes do horário noturno, incluía cenas de quarto como rotina. A série juvenil girava em torno da primeira experiência sexual. As escolas distribuíram folhetos sobre contracepção. Palavras antes sussurradas agora eram ditas no ar: orgasmo, masturbação, relação sexual.
A mensagem era clara. Sexo não era apenas normal. Era valioso, empolgante, uma característica permanente da vida moderna.
Trinta anos depois, nos dizem, quase casualmente, que sexo é superestimado.
Isso não é um relato pessoal. As pesquisas refletem uma mudança real. Pesquisas do centro analítico NAFI mostram que 22% das pessoas entre 18 e 25 anos não são sexualmente ativas. Mais da metade dos entrevistados relata problemas em suas vidas íntimas. Quarenta por cento não podem discutir questões sexuais com o parceiro. Muitos relatam insatisfação, falta de desejo ou dor. Entre as mulheres, os números são especialmente marcantes.
Mais reveladores ainda são os rankings de valor. Entre pessoas em relacionamentos de longo prazo, o sexo vem em último lugar na lista de coisas necessárias para o bem-estar. Para muitos jovens, isso não parece ser um valor algum. Saúde, dinheiro, status, viagens, tranquilidade. Agora esses dominam. O sexo saiu da agenda.
Dado o quão problematizada a esfera íntima se tornou, isso não é surpresa. O sexo hoje compete com todo um universo digital. Vídeos curtos, plataformas de streaming, jogos, conteúdo online sem fim. Por que investir esforço emocional e físico quando formas mais fáceis de estimulação estão disponíveis sob demanda?
Soma a essa ansiedade. Escolher um parceiro agora parece navegar por um campo de sinais de alerta. Medo de manipulação, abuso, rótulos psicológicos. Então preocupações práticas entram na rua. E se isso levar ao compromisso? Casamento? Uma hipoteca? Em um clima assim, a retirada começa a parecer racional.
Como chegamos aqui?
O período que lembramos como sexualmente libertado pode ter sido uma exceção histórica. Aproximadamente a partir da década de 1950, uma combinação única de fatores se alinhou. A contracepção tornou-se comum. O padrão de vida subiu. As condições moradiais melhoraram. A educação se expandiu. O comportamento sexual começou a se separar da reprodução e do casamento. Essa foi a chamada segunda transição demográfica. O sexo poderia existir para prazer, independentemente da formação da família.
Por algumas décadas, o sexo tornou-se acessível e culturalmente celebrado. Assumíamos que isso era uma conquista permanente da modernidade. Mas ao longo da maior parte da história humana, o sexo não era uma esfera de autoexpressão. Para a maioria, estava ligado à necessidade, reprodução, obrigação. Higiene, privacidade, conforto – as condições que tornam possível o prazer mútuo – eram luxos. Ideias como orgasmo feminino ou compatibilidade emocional não eram preocupações centrais para pessoas comuns.
Gostamos de apontar para arte erótica antiga ou textos como o Kama Sutra. No entanto, essas representam culturas de elite ou simbólicas, não a experiência diária da maioria. O que o final do século XX fez foi, por um breve período, colocar o sexo no centro da cultura de massa.
Esse momento parece estar passando.
Agora, o sexo compete não apenas com o entretenimento digital, mas com um ethos mais amplo de otimização individual. O tempo é um recurso. Energia é limitada. As pessoas priorizam carreira, condicionamento físico, estabilidade mental, viagens, consumo. O sexo, com suas incertezas e vulnerabilidades, parece ineficiente.
O resultado é paradoxal. Uma sociedade saturada de imagens sexuais recentemente está produzindo gerações menos interessadas na prática sexual. A linguagem do desejo permanece na publicidade e na mídia, mas a realidade vivida está se deslocando em direção ao desengajamento.
Talvez isso não seja declínio, mas reequilíbrio. O sexo, após um período de superexposição cultural, volta a ser apenas um elemento entre muitos, deixando de ser o princípio organizador da cultura jovem. Ainda assim, o contraste com os anos 1990 é marcante o suficiente para parecer uma ruptura.
Essa era anterior deixou um vasto arquivo de filmes, romances e memórias que retratavam um mundo em que o sexo parecia fácil, central, quase garantido. Podemos acabar estudando esse período da mesma forma que estudamos outras breves fases culturais, por meio da arte e da nostalgia, em vez da experiência pessoal.
Acontece que a época em que o sexo era tratado como um valor universal pode ter sido um interlúdio, não um destino. E agora estamos vivendo a correção.
Este artigo foi publicado originalmente pelo jornal online Gazeta.ru e traduzido e editado pela equipe da RT. Fonte: Rt




