O Natal está aí, mas você não está aqui!

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Por Roberio Sulz

Vi essa frase num cartão de Natal recebido por um colega quando ainda habitava nos Estados Unidos. Chegara do Brasil, de sua namorada que não poupara adicionar de próprio punho mais carinhosas palavras a refletir seu amor e sua saudade, tais como “…para abraçar você e sentir sua presença nesta data”. O destinatário, sensibilizado, que praticava o costume de pendurar os cartões recebidos em sua árvore de Natal junto à porta de entrada de sua morada, decidira ter este em sua mesinha de cabeceira ao lado do porta-retrato da amada.

Claro! A cada Natal recupero essa lembrança a conjecturar como e quantas pessoas não se sensibilizariam em receber tão expressiva mensagem, especialmente no Natal? Qualquer vivente, seja humano ou não, se engrandece ao se perceber amado, perdoado e, sobretudo, fazendo falta na vida de alguém. Falta não como suporte material, mas como pedaço da alma, como pedra angular na purificação espiritual. A troca de afagos e de demonstrações de elevada querência praticadas nas festas de Natal tem elevada significância na vida dos que reservam a esta época a busca da santificação pelo exercício do amor, do perdão e da caridade.

Imagine como se sentiria aquele que recebesse de alguém que um dia lhe fez mal, magoou, condenou, desprezou e cuspiu na sua face, real ou virtualmente, a mensagem O NATAL ESTÁ AÍ, MAS VOCÊ NÃO ESTÁ AQUI PARA TE ABRAÇAR E SENTIR SUA PRESENÇA NESTA DATA. Equivale a ser reconhecido como digno de ter sido amado, perdoado e purificado pela misericórdia alheia.

A mensagem é um fantástico exercício que nos conduz a pensar em quem amamos, de verdade, e que nos faz falta em todos os momentos ou nos especiais, como nas festas natalinas. Como gostaríamos de ter ambiente amplo como a generosidade de nosso coração para receber e abraçar no Natal todos os entes amados, inclusive os animais que nos acompanharam e nos serviram em vida.

Sentir falta ou saudades de alguém especialmente no Natal é uma bênção, uma oração silenciosa e não por coincidência inclusa no “Pai Nosso” que aprendemos com Cristo Jesus. Assim como nos sentimos mais limpos quando somos lembrados, perdoados e abençoados, cada um de nós pode ser o agente da oração e fazer chegar ao próximo, seja parente, amigo ou mesmo àquele que pensamos nos tenha ofendido a mensagem que diz estarmos sentindo sua falta na troca de abraços por ocasião do Natal.

Importante fazer o Natal ser tão valioso como os bons sentimentos de convivência social que nos levaram a conquistar o amor do próximo. Fazê-lo grande como a quantidade de amigos que conquistamos na vida, lembrando que conquistar amigos é expandir o amor, levá-lo até mesmo aos pobres e desvalidos que nunca vimos, mas, como Deus, cremos em sua existência e nos obrigamos a amá-Lo.

Nossa grandeza nessa festa é tanto maior quanto mais se viveu e se curtiu a vida. Ainda novinhos, a família é tudo e cabe numa casa, raramente passa dos pais, irmãos, avós, tios, animais de estimação etc. Daí em diante, os amigos não param de aumentar. São os colegas de escola escolhidos por afinidade e permuta de atenção aos casos e confidências, a pretensa namoradinha que retribui candidamente aos flertes, os companheiros de torcida do time do coração e outros que a gente nem sabe porque se tornaram amigos. Adultos, planifica-se a continuidade da vida, nova família, filhos, parentes e amigos a perder de vista.

É nessa gente toda que os mais velhos pensam na noite de Natal. Que bom se pudéssemos tê-los juntos a nós em prosa, abraços e beijos! Mas, muitos já não estão a nosso redor, moram longe! Outros viajaram para o Paraíso eterno, deixaram saudade, mas também a alegria de ainda viverem em nossas lembranças.

Enviemos a todos que compõem nossa memória, não importa se os temos como bons ou maus, nem a distância, a dimensão e o tempo que nos separam, a mensagem: O NATAL ESTÁ AÍ, MAS VOCÊ NÃO ESTÁ AQUI PARA RECEBER MEU ABRAÇO, MEU BEIJO. Nem precisa de cartão escrito ou comunicação eletrônica, faça-o em forma de oração! Com certeza seremos ouvidos retribuídos.

FELIZ NATAL!

*Roberio Sulz é biólogo, biomédico e professor com licenciatura plena em Ciências biológicas (UnB), MSc. (University of Wisconsin, USA). Membro Correspondente da ALAS –  Academia de Letras e Artes do Salvador/BA.  [email protected]