
Por Thales Aguiar*
Caros leitores, há momentos em que um escândalo financeiro deixa de caber nas páginas de economia. O caso Banco Master é um deles. O que está em jogo não é apenas a quebra de um banco ou a eventual responsabilidade de Daniel Vorcaro. É a relação entre dinheiro, poder e instituições numa democracia em que os cidadãos frequentemente descobrem a conta depois que ela já foi apresentada. O Banco Central liquidou extrajudicialmente o conglomerado ligado a Vorcaro em novembro de 2025, citando crise de liquidez, violações de normas e comprometimento da situação financeira. A Polícia Federal investiga, na Operação Compliance Zero, a suspeita de criação e negociação de carteiras de crédito falsas. Uma frente apontou R$ 12,7 bilhões em créditos que teriam sido oferecidos ao Banco de Brasília (BRB); outra estimativa fala em até R$ 17 bilhões em títulos forjados.
Aqui começa a dimensão política do caso. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que ressarce investidores dentro dos limites legais, enfrenta desembolsos extraordinários. As estimativas variam de R$ 47 bilhões a R$ 52 bilhões, conforme sejam incluídas instituições relacionadas, garantias e perdas potenciais. O número definitivo ainda depende da liquidação e da perícia. Portanto, o rombo superior a R$ 50 bilhões deve ser tratado como hipótese plausível das investigações, não como balanço encerrado. Mas números, por si sós, não explicam o abalo. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal porque relatórios da PF passaram a mencionar contatos de Vorcaro com autoridades e magistrados. Em 15 de setembro, o Plenário suspendeu, por pedido de vista do ministro Flávio Dino, a discussão sobre reunir duas petições relacionadas ao episódio. O mérito não foi julgado. O próprio STF ressaltou que, por ora, estão em debate competência, validade de provas e rito processual, não responsabilidade penal.
Como cientista político, vejo aí o ponto mais sensível: a crise de confiança. Mensagens podem sugerir relações impróprias, mas não substituem prova de crime. O sigilo, por sua vez, não pode servir como biombo permanente para instituições que exercem poder extraordinário. Quando ministros divergem sobre relatoria, impedimento e validade de relatório policial, o Supremo precisa explicar suas regras ao público. Se não o fizer, qualquer decisão será interpretada como defesa da Justiça ou como proteção corporativa, conforme a preferência política de cada leitor. Minha hipótese é incômoda, mas não irresponsável: Vorcaro pode ser menos o autor solitário de uma trama e mais o operador visível de uma engrenagem ampla. Não afirmo que exista uma rede criminosa acima dele. A investigação ainda precisa provar quem participou, quem lucrou e quem fechou os olhos. O que já se enxerga é um padrão recorrente: crédito caro, ativos de difícil verificação, influência política, trânsito institucional e prejuízo socializado.
Os “tubarões” do sistema financeiro raramente aparecem no primeiro plano. Podem estar espalhados entre fundos, escritórios, intermediários, compradores de ativos, agentes públicos e redes de proteção. Por isso, a pergunta decisiva não é apenas “o que Vorcaro fez?”. É também: quem dependia daquele modelo, quem o legitimou e quem se beneficiou enquanto ele funcionava? Prender um banqueiro, se houver base legal, pode ser necessário. Encerrar o caso nele seria conveniente demais. O episódio exige responsabilização individual, com devido processo, e reforma dos controles que permitiram tamanha concentração de risco. O STF deve proteger a Constituição, não a própria imagem. O Banco Central precisa mostrar onde a fiscalização falhou. E o Congresso deve discutir se o modelo do FGC e da supervisão bancária não continua premiando a privatização dos ganhos e repartindo as perdas.
Em paráfrase livre de George Orwell, quando a mentira se veste de normalidade, a primeira defesa da sociedade é chamar as coisas pelo nome. No caso Master, isso significa separar rumor de prova, operador de beneficiário e crise bancária de crise institucional. É assim que saberemos se estamos diante de um escândalo isolado ou do retrato de um sistema que aprendeu a esconder seus verdadeiros donos.
*Thales Aguiar é jornalista e especialista em Ciência Política.


