Uma coisa é fato, indiscutível, nascemos para ser felizes! A busca pela felicidade será eternamente uma meta humana. E este objetivo conjuga-se com várias outras situações, pois a felicidade não existe por si só, ela é encontrada intimamente nas coisas que realizamos.
Assim, podemos ser felizes ou não independentemente do tipo de coisas que fazemos. A felicidade pode ser encontrada na leitura de um livro, numa caminhada matinal, numa conversa descontraída, num objetivo alcançado, numa meta realizada. A sensação de felicidade pode brotar das situações mais inusitadas, estranhas e bizarras. Um dia de trabalho duro, pesado, estressante pode terminar com a sensação de felicidade da mesma forma que o amor, o mais sublime dos sentimentos, pode conduzir uma pessoa às amarguras e tristezas. Estranho, mas a mais pura realidade! Ser feliz, portanto é algo complexo.
A felicidade pode estar presente em tantas coisas, mas costumeiramente achamos que ela só se manifesta através da diversão e entretenimento. E isto pode ser um enorme engano!
Frequentemente uma emissora de TV divulga que um número exorbitante de pessoas participa de forma interativa, através de ligações, de um dos seus programas, refiro-me ao BBB. Se os números divulgados pela emissora forem realmente verdadeiros, torna-se algo espantoso de acreditar. Só a atual edição já ultrapassa a surpreendente marca de 132 milhões de participações através das votações.
Não pretendo aqui discutir a qualidade, a intenção, e tão pouco analisar o mencionado programa. Justamente porque não tenho esta condição, pois não sou um dos seus telespectadores. Mas confesso que muito me incomoda o Brasil dos três B’s. Volto a repetir, não pelo programa, mas pelo envolvimento de uma grande parcela do povo brasileiro com ele.
Estamos vivendo um momento de caos social, de apatia intelectual, direitos sendo remexidos e aniquilados, a riqueza da nação sendo jogada às traças, estamos vivendo uma falência institucional, cultural e humana. E por incrível que parece nossa maior preocupação está sendo o Brasil dos três B’s. A sensação que se tem é que desistimos do Brasil.
Parece que estamos confundindo felicidade com alienação. Mesmo que inconscientemente o que dá a entender é que não sabendo das coisas, não acompanhando as notícias, não ficando informados do que está acontecendo seremos mais felizes.
Mas se esta for realmente a nossa intenção, o tiro está saindo pela culatra, pois nossa alienação está nos afastando daquilo que realmente nos fará felizes. Que é ver um ente querido ser bem atendido em um hospital; a educação funcionando da forma que deveria; as crianças podendo praticar inúmeras modalidades esportivas; namorar na praça; andar de mãos dadas pelas ruas; curtir um filme legal; e também ver os mais variados programas de entretenimento nas nossas casas sem estarmos correndo o risco de sermos assaltados.
Não gostaria que este artigo fosse interpretado somente como uma crítica ao programa. Pois seria uma forma fácil de continuarmos tampando o sol com a peneira. Só acredito que deveríamos ter em relação ao Brasil que vivemos, que é a nossa pátria, a nossa nação, o lugar que habitamos, que criamos nossos filhos e construímos a nossa vida, o mesmo envolvimento e participação que temos em relação ao Brasil dos três B’s.
Nossa apatia em relação ao Brasil é a maior manifestação de que tudo aquilo que precisamos de fato nunca vai acontecer. Nossa alienação com ares de felicidade não passará de um surto, de poucos minutos em frente a uma telinha.
Por Walber Gonçalves de Souza é professor e membro das Academias de Letras de Caratinga e Teófilo Otoni.