Marcas traiçoeiras

427

Por Roberio Sulz*

A nova capital do Brasil nasceu sob a turbidez da poeira vermelha levantada pelo vai-e-vem dos tratores, escavadeiras e outras máquinas que trabalhavam incessantemente para dar conta do arrojado projeto de construir e consolidar uma cidade capital no planalto central. Aprendia-se a conviver com o pó vermelho, presente até nos documentos oficiais. Não se tomava como falta de higiene o colarinho empoeirado nas camisas sociais dos executivos.

Contudo, o mais grave perrengue para os candangos pioneiros era a falta de moradia. Enquanto se aguardava uma casa ou apartamento no Plano Piloto, o jeito era habitar edificações provisórias de madeira, arranjadas em pequenos bolsões residenciais – semelhantes aos condomínios fechados de hoje – chamados acampamentos. Eram formados por casas para famílias, alojamentos coletivos geminados para solteiros, área de recreação, restaurante e clube para reuniões comunitárias e animadas festinhas.

A Vila Planalto, por sua proximidade física com a Esplanada dos Ministérios e repartições públicas, reunia talvez a maior parte desses acampamentos. Construídos e mantidos por empreiteiras envolvidas nos serviços de engenharia, ofereciam razoável conforto e próspero ambiente de desenvolvimento social. Nas proximidades dos acampamentos – como esperado – apareceram improvisadas vendinhas de varejo, farmácias, lanchonetes, bares e até casas de forró; estas geralmente dominadas por nordestinos.

De padrão bem variado, algumas, aliás, raras, elitizadas, com palco para artistas, piso cimentado, mesas e cadeiras confortáveis e serviço aceitável. Outras populares, mais ao jeito de taperas improvisadas com piso poeirão desnudo, de barro batido, bancos de madeira, mesas de tábuas reaproveitadas e desniveladas, onde a bebida mais consumida era a “marvada” pinga pura ou saborizada com misturas.

Nos fins de semana eram essas casas populares de forró, de preço bem acessível, que se lotavam. Clientela que não se restringia à plebe, muitos traidores da elite por lá apareciam para se melar no suor e cheirar o cangote das candanguinhas descoladas. Namoradinhas conquistadas a baixo custo. Satisfaziam-se com cerveja, vermute doce ou um “samba-em-berlim” (cachaça com coca cola e limão). A penumbra decorria da econômica iluminação feita com escassas lâmpadas incandescentes de 40 watts. O tira-gosto, quando melhor, era de carne do sertão (de sol) queimada na chapa quente do fogão a lenha com farinha escaldada.

A animação ficava por conta do tradicional trio nordestino, com sanfona, zabumba e triângulo. Vez por outra, juntava-se ao trio um improvisado cantor, geralmente filho de cego.

Nessa época fazia sucesso o “Forró da Gata”, rústica casa desse gênero no Acampamento da Metropolitana, próximo ao Núcleo Bandeirante (também chamado Cidade Livre). Destacava-se por oferecer amplo salão e dezenas de mesas. O piso no barro cru batido era coberto por capim seco, renovado sempre, com o propósito de reduzir a poeira levantada durante a dança. Contudo, não faltava quem achasse o capim a contribuir para mais poeira quando a dança esquentava.

Foi nesse ambiente que Libório parou numa noite de sexta feira. Convidado por Waldir, seu colega de trabalho, mentiu a sua esposa, Norminha, dizendo que, ao sair do trabalho, se juntaria a colegas para comemorar o aniversário de um deputado potiguar, no Brasília Palace Hotel, em espaço especialmente reservado para aquele evento.

O forró rolou solto e Libório não desdenhou as novinhas que lhe davam bola. Agarradinho, ora quase paradinho em íntima troca de carinho, ora em arrasta-pés e rodopios como se fosse um mestre dançarino, curtiu até a alta madrugada.

Waldir deixou-o em casa. Antes de ir para a cama, banhou-se e escovou dentes para desmanchar pistas de malfeito. Sob sono de quase desmaio, caiu na cama que nem conseguiu ouvir os resmungos e perguntas da parceira de leito. O sábado, para ele, começou depois das onze, com o chamado altissonoro e raivoso de Norminha, a exibir-lhe sua camisa social branca com inconfundíveis marcas avermelhadas de mãos empoeiradas nas costas.

Pediu tempo para despertar e tomar água. Explicaria em seguida que um inesperado rodamoinho encheu o ambiente de poeira pousando sobre tudo e todos. Continuou, tentando justificar as marcas como de amigos e autoridades presentes que o cumprimentavam com abraço.

Norminha retrucava:

– No abraço de político as mãos não chegam às costas, ficam nas laterais da costela. E tem mais, as marcas são de dedos finos! Muitas são de duas mãos agarradas na altura do ombro como se amassassem a camisa! Tem até marca no lado de trás do colarinho! Homem sério nenhum trocaria um chamego desses! Ou você se esqueceu que é homem e participou de uma festa de boiolas?

– Eu explico: engasguei-me com uma espinha de peixe e muita gente, inclusive senhoras presentes, veio em meu socorro com tapas nas costas.

– Engasgado fica sempre sentado; os tapas são dados com as mãos voltadas para baixo. No seu caso todas as marcas são de mãos com os dedos para cima.

– Sem vergonha! Mentiroso! Não vai sair de perto de mim por um mês. E, noutras festas, conte comigo como sua inseparável companheira. Entendido?

*Roberio Sulz é biólogo e biomédico pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. Pensador por opção. [email protected]