Por Robério Sulz*
Tive como contemporâneo na Universidade de Brasília e como colega professor de biologia na rede pública de ensino do DF o inesquecível Tiago. Tornou-se médico obstetra de boa fama, integrado à equipe de profissionais do Hospital de Base.
Havia década que não nos encontrávamos. Ele na labuta aqui no Brasil e eu nos Estados Unidos completando meus estudos. Trocamos muita alegria ao sentarmos para colocar o papo em dia. Ávido por saber de minha experiência de vida na América, fiz um breve relato da “american way of life” (modo de viver americano), aspectos positivos e negativos, vantagens, desvantagens, clima, amizades e, sobretudo, modernidades ainda por chegar ao Brasil. Falou-me de seu cotidiano e sua marcante resistência em adotar certos hábitos da vida moderna. Econômico de poupar tostão, não usava cartão de crédito nem cheque. Relutava dar lucro a banqueiro. Não perdera o costume de tudo pagar com “dinheiro vivo”, embora reconhecesse a insegurança que isso inspirava. Casara-se com uma ex-colega de magistério. Não durou, estava separado há mais de três anos. Depois disso, experimentava namoros ocasionais, sem compromisso, iniciados em boates ou festinhas e encerrados em desencontros propositais.
Não perdera o gosto por seus momentos de veraneio no Espírito Santo: Guarapari, Anchieta e outras praias, preferindo as mais sossegadas e econômicas.
Contou-me um vexame vivido em suas férias. Alugara um chalé em Itaipava/ES com amplas janelas frontais, voltadas para o mar, desses com a areia da praia batendo na porta da frente. Foi molhando os pés na espuma do mar que encontrou Homero, antigo colega professor de Geografia do Elefante Branco. Homero, eterno solteiro, era do tipo moleque, namorador inveterado, presente em quase todos os eventos que lhe sugerisse possibilidade de paquera. Juntaram-se a caminhar do sul para o norte e vice-versa. Ao passar defronte a um chalé, Homero parou, fixou o olhar nos volumosos glúteos que, expostos na janela, escondiam o cordão posterior do biquíni. A dona dessas grandezas sentava-se na janela de costas para o mar. Antes que Tiago lhe informasse ser aquele o seu chalé, Homero expressou:
– Caramba, aquela ali é Maga Pandeirão, frequentadora do Clube dos Previdenciários.
– Não é não! É Magali, minha noiva, que trouxe para passar férias comigo – retrucou Tiago.
Resolveram conferir. Ao se aproximarem, Magali saltou da janela, foi até a porta e cumprimentou Homero com intimidade de velho conhecido.
– E daí? Indaguei.
– Tive vontade de encerrar minhas férias naquele momento. Trazer Magali de volta e fingir que nunca a tinha visto na vida. Mas pensei no prejuízo. Já havia pago antecipadamente quinze dias de aluguel e feito fartas compras num supermercado, aproveitando as ofertas do dia. Brigar com Magali deixar-me-ia solitário. Melhor foi me fazer de desentendido. Contudo, encerrei o namoro assim que pisamos de volta em Brasília.
E Tiago continuou:
– Nunca me esqueci daquele vexame. Desvio e até evito a mesma calçada com Homero, que certamente me tem como trouxa. Imagine que nível de intimidade tinha ele com Magali, para conhecê-la a partir de seu traseiro desnudo. Chato, pra caramba!
Aproveitando o embalo, falou-me sobre outra mancada em seu currículo. Encontrara-se acidentalmente no Conjunto Nacional com Sorama, ajudante do laboratório de anatomia humana da universidade. Quando por lá era estudante, Sorama grudara-se nele; fazia questão de abraçá-lo, alisá-lo, amassá-lo e beijá-lo. Prestimosa, procurava atendê-lo em tudo.
– Só não lhe dei um fora, porque ela me atendia com especial deferência e isso muito me ajudava.
Mesmo não mais frequentando o laboratório de anatomia, ela o abordava nos corredores com “alegrias”. Sorama era considerada no meio da estudantada a mulher mais feia do mundo, de dar medo até nos defuntos do laboratório. Livrou-se dela, com a intenção de não mais a ver, quando fora para o internato no hospital-escola de Sobradinho.
– Naquele encontro, depois de tempos, cumprimentei-a formalmente. Mas ela insistiu em alongar a conversa. Convidou-me para a festa de aniversário de sua filha. Deu endereço, dia, hora etc. Acrescentou que eu iria gostar, pois sua filha era muito bonita. Impossível nascer gente bonita daquele tribufu, pensei e não fui. Na época, dedicava meus devaneios de amor exclusivamente a Clarinha.
Clarinha era uma jovem instrumentadora cirúrgica admitida no hospital. Simpaticíssima, de sorriso encantador e prosa carinhosa e agradável. Em trajes comuns confundia-se com qualquer bela mulher do mundo. Uma face de fazer inveja aos modelos fotográficos de cosméticos. No ambiente operacional, com pijama cirúrgico, toca e máscara deixava à mostra apenas seu lindo e expressivo olhar. Tiago confessou que, muitas vezes, durante o procedimento cirúrgico se distraía por segundos para apreciar e delirar com o olhar de Clarinha. Não perdia a oportunidade de elogiar sua beleza. Nunca indagava sobre seus compromissos sentimentais. Temia resposta que lhe arrasasse esperanças e apertasse as coronárias.
Numa segunda-feira, Clarinha levou para Tiago, uma fatia de bolo. Fizera aniversário naquele domingo da véspera. Tiago agradeceu, cumprimentou-a. Imediatamente, aproveitando a agenda vazia no centro cirúrgico, adiantou-se em adquirir um buquê de rosas vermelhas para ganhar caloroso e esperado abraço.
Beijou-a na face e, ao lamentar-se ausente na sua festa de aniversário, ouviu de Clarinha:
– Não foi por falta de convite. Minha mãe Sorama disse tê-lo convidado.
Roberio Sulz é biólogo e biomédico pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. Pensador por opção. [email protected]