Loreto e a muriçoca

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Por Robério Sulz*

Após dia de trabalho intenso visitando pequenas propriedades rurais em Alagoas, Loreto parou para pernoite na localidade de Mata Grande, divisa com Pernambuco. Suado e empoeirado, a primeira providência foi tomar uma chuveirada antes de jantar.

Debaixo do chuveiro, acompanhou o voo de uma muriçoca carregada. Pousada na parede, aplicou-lhe uma certeira palmada que a fez explodir e reproduzir no azulejo branco uma figura que mais parecia o retrato de uma pessoa. Pequeno, semelhante àqueles 3×4 usados em documentos.

Fechou o chuveiro e deteve-se a examinar a figura estampada em sangue escuro. Lembrava a efígie de mulher de cabelos médios. Para não passar por mentiroso em mais um de seus casos a ser contado, teve a ideia de coletar a imagem para exibi-la aos incrédulos. Cuidadosamente, pegou o rolo de papel higiênico e, ao estilo mata-borrão, fê-lo rolar sobre a figura, decalcando-o. O papel com decalque foi deixado a secar sobre a toalha de rosto.

Manhã seguinte, antes do café, gastou tempo tentando ligar o decalque a alguém de seu conhecimento, ou gente de cinema e TV. Sem sucesso, guardou-o sem dobras, entre as folhas de seu caderno de anotações.

Retomou normalmente seu trabalho junto aos pequenos produtores rurais da região. Voltando a Maceió, na sede da EPEAL – Empresa de Pesquisa Agropecuária de Alagoas, seu local de trabalho, fotocopiou o curioso decalque e adicionou um breve relato de como o obtivera. Na cópia, aproveitava para indagar se a imagem lembrava pessoa conhecida ou já vista em algum lugar.

Terminou sendo convidado a comparecer à delegacia policial. É que estava em curso investigação sobre o desaparecimento de Iraildes, mulher, com trinta anos de idade. Suspeitava-se de ter sido sequestrada, há uma semana, por seu ex-marido, com domicílio errático e desconhecido. Foto fornecida pela família à polícia bem lembrava o decalque. Na falta de outros encaminhamentos, a polícia levou em conta a possibilidade de conexão entre o decalque e a desaparecida. Poderia ensejar algo além da mera coincidência.

Loreto declinou, com preciosos detalhes, tudo o que sabia e lhe ocorrera naquela passagem por Mata Grande, há sete dias. Hospedara-se no Apartamento 7, o último do corredor. Na pressa, nada falara ao proprietário-administrador da pensão, Sr. Belízio.

Os policiais ainda lhe indagaram sobre outro(s) hóspede(s), veículos, tipo, cor, placa. Sons ouvidos, marcas nas paredes, presença no café da manhã etc. Apesar de Loreto ser curioso e de verve investigativa, nada pode ajudar com relação a esses detalhes, exceto pelo nome e endereço onde pernoitara naquela noite: Pensão Recanto da Mata. Dispôs-se a ajudar e acompanhar pessoalmente trabalho policial naquela cidade.

A bordo de uma van Chevrolet, conduzida por motorista oficial, Loreto mais um investigador e um profissional da polícia técnica embarcaram antes das sete da manhã rumo a Mata Grande.

Chegaram de surpresa à pensão. Estrategicamente, não revelaram o objetivo da visita.  Após os cumprimentos iniciais, os policiais, ainda no anonimato, mostraram ao gerente-proprietário, Belízio, a figura em decalque e indagaram se no estabelecimento hospedara-se recentemente alguma senhora que pudesse ser lembrada por aquela estampa.

Perceberam um certo desconforto do gerente-proprietário ao negar a pergunta de pronto, seguido de muxoxos e sorrisos, zombando do interesse policial ao saber que o decalque fora obtido a partir do esmagamento de uma muriçoca num dos aposentos de sua pensão.

Ao revelarem a suspeita de sequestro, mostraram-lhe também as fotos da mulher e do sequestrador suspeito. Ante essa informação, Belízio informou ter recebido um casal que recusara ajuda na condução da bagagem pessoal. Hospedara-se apenas para pernoite no apartamento 6, colado ao qual estivera Loreto na noite posterior. Segundo ele, o homem tinha tudo para ser a pessoa procurada. A mulher também parecia, mas não podia dar certeza, pois portava um xale preto sobre a cabeça, cobrindo-lhe parcialmente o rosto.

Acrescentou não terem saído para jantar. Comeram algo supostamente trazido no próprio veículo, uma camionete comum branca de caçamba. Sobre a placa, não soube informar.

– Alguém mais teria visto a camionete e o casal na cidade? – Indagou o investigador.

– Não creio! Chegaram já de noite. De poucas palavras, pagou antecipadamente e saíram ainda madrugada escura, dispensando o café da manhã.

Sobre algum resíduo indicativo anormal deixado pelo casal, Belízio disse que a limpeza do apartamento fora realizada dentro da rotina sem achados estranhos.

Quanto à direção tomada, admitiu terem cruzado a divisa com Pernambuco, em Inajá e seguido para Ibimirim, como costume dos que por lá hospedam em viagem e tomam o rumo do norte.

Loreto propôs inquerir quem fizera a limpeza e arrumação do apartamento após a saída do casal. Belízio pigarreou para dizer que esse serviço é feito por dona Nalva, empregada temporária, residente na pensão, mas ausente naquele momento. Deixou transparecer desagrado com a proposta. Interpôs dificuldade ao encontro. Porém, não resistindo à insistência dos policiais, pediu à cozinheira para achá-la e trazê-la à pensão.

Mal chegara, antes de ser inquerida, dona Nalva foi puxada pelo braço para um canto reservado onde Belízio fez questão de lhe passar, aos cochichos, algumas recomendações. Loreto percebeu tom de ameaça nessa conversa, pelo gesto de dedo em riste.

Dona Nalva, frágil e esquálida senhora na meia idade, tremia e não tirava os olhos do patrão, mostrando-se submissa e com medo de contrariá-lo. Fazia dó perguntar-lhe qualquer coisa.

O investigador, experiente profissional, conseguiu quebrar-lhe a inibição e o mal estar beijando-a na testa e dizendo ter uma tia parecida com ela que o fazia dormir contando histórias e cantando músicas de igreja.

Destravada, dona Nalva contou que trabalhava como faxineira e arrumadeira na pensão há mais de ano, cuidando de toda limpeza e arrumação dos cômodos. Indagada, informou que, depois daquele casal nenhum outro hóspede ocupara o apartamento 6, justificando que os apartamentos 2, 4 e 6 são para casais e os outros, até o 7, para solteiros, estes os mais procurados pelos viajantes. Nada de anormal notaram nos apartamentos, já desocupados.

Conversadeira, dona Nalva deixara escapar que o patrão se diz viúvo de muitos anos e mora sozinho nas dependências que se seguem ao apartamento 7.

– A senhora também cuida dos aposentos do patrão?

– Sim! Mas, ele me dispensou de entrar lá nos últimos dias.

– Por que?

Com a índole fofoqueira provocada, dona Nalva soltou o verbo aos cochichos:

– Creio que arrumou namorada. Eu e a cozinheira desconfiamos porque quando fazia o prato para comer no apartamento, ele o abarrotava como se fosse para mais de uma pessoa. Parece que não durou. Faz dias que foi embora. Seu Belízio voltou ao prato normal. Cheguei a ver a tal moça pelo buraco da fechadura. Parecia gente doente ou paralítica. Sentada na cadeira com as mãos para trás, recebia a comida na boca. Agora, ele anda com mania de plantar hortaliças. Suja muita roupa com terra. Por cima do muro vi os canteiros.

Loreto mostrou-lhe a cópia do decalque obtido da muriçoca esmagada na parede do banheiro e a foto real de Iraildes. Sem perguntar, dona Nalva foi categórica ao afirmar que a foto era da mulher vista na cadeira recebendo comida. Foi, então, que Loreto sugeriu aos policiais fazer uma vistoria nos aposentos do patrão.

Belízio bateu pé. Só abriria seus aposentos a estranhos sob autorização judicial e com a presença de policiais militares fardados. Os investigadores não se deram por vencidos.

Um deles ficou com Loreto em Mata Grande pastorando Belízio, já advertido para não adentrar seus aposentos, enquanto o outro, da polícia técnica, foi a Santana do Ipanema providenciar o mandado de busca.

Belízio informou que deixaria a pensão por alguns minutos para providenciar advogado em sua defesa. Saiu e não voltou mais.

Já era final de tarde quando chegou a ordem judicial. Vieram também um sargento e um cabo da polícia militar para garantir a operação de busca. Arrombaram a porta dos aposentos de Belízio.

Muita sujeira, roupas suadas e encardidas, terra e restos de comida esparramados pelo chão, pratos, canecas e talheres imundos. O mau cheiro lembrava mofo, suor e fezes. Numa gaveta da cômoda, um grosso e valioso maço de dinheiro. No banheiro, uma calcinha feminina e xale preto rendado esgarçado, como se tivesse sido forçado além de sua resistência. Uma mancha mais escura no assoalho de madeira marcava o lugar onde, segundo dona Nalva, ficava um baú. Loreto, com a ajuda do profissional da polícia técnica, notou que, apesar da tentativa de apagar, o baú deixara marcas ao ser arrastado em direção à porta de acesso a um pequeno quintal exclusivo daquela dependência.

Ao abrir a porta, perceberam grossa camada de terra solta na superfície, arranjada em forma de canteiros enfileirados. Realmente, parecia intenção de se fazer ali uma horta. Pura simulação para camuflar algo sob o solo, segundo Loreto.

A hora passava e a continuidade dos trabalhos ficou para o dia seguinte. Providenciariam mandado de prisão preventiva para impedir a evasão de Belízio. Desnecessária, pois ele já se escafedera da localidade, sem deixar rastro. O sargento que participava da busca pediu e obteve reforço militar para guardar e preservar o local investigado.

Dona Nalva providenciou camas, toalhas de banho e repelente de insetos para o pernoite do pessoal. Manhã seguinte, serviu o desjejum com cuscuz de milho, aipim cozido, leite quente, pão, manteiga e café. Também ajudou a contratar um cavador de cacimba e fossa para trabalhar na remoção de terra no quintal dos aposentos sob vistoria.

Não muito tardou, desenterraram o baú. Lá estava um corpo de mulher, com pernas e mãos atadas com meia de náilon feminina. Mesmo com as feições distorcidas pelo sofrimento antes da morte, refletia bem a figura do decalque e, ainda mais, a foto da cidadã sequestrada. Fotografias, especialmente das marcas no pescoço, impressões digitais e alguns coágulos sanguíneos foram tomados pelo profissional da polícia técnica, ainda que por mera formalidade, pois, o corpo seria removido para o Instituto Médico Legal de Maceió.

Para Loreto, fim do enigma. As marcas de estrangulamento com uso do xale, sinais óbvios de abuso sexual, ocultação do cadáver, a hospedagem de um misterioso casal no dia do sequestro, a fuga de Belízio quando se sentira irremediavelmente perdido e outros elementos eram suficientes para se fechar o quadro de crime de sequestro, estupro e cárcere privado, seguido de assassinato. O sequestrador, que chegara à pensão se passando por marido da vítima era de fato seu ex-marido. Já tratara previamente com Belízio, sob pagamento em dinheiro, a entrega da sequestrada para usá-lo como quisesse e lhe dar sumiço.

Tudo isso foi confessado, dias depois, por Belízio que se entregara à polícia, alegando estar sendo perseguido por pistoleiros profissionais. Os mesmos que já haviam executado o sequestrador em Serra Talhada/PE a mando da família de Iraildes.

*Robério Sulz é biólogo e biomédico pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. Pensador por opção. [email protected]