Lembranças Helvecianas

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Tem coisas que a gente não esquece e faz regressar no tempo a cada oportunidade de lembrança. Isso ocorre com os filhos de Helvécia, pequena vila do Extremo Sul da Bahia, quando se fala da festa de São Sebastião, levada a efeito em janeiro de cada ano. Vem gente de todo lado, principalmente helvecianos, hoje habitando arranha-céus e frequentando shopping centers nas grandes cidades. Mal chega o ano novo e lá vêm eles velejando sobre o mar da saudade, ao sopro e ao leme da vontade de respirar a atmosfera da terra natal, de rever amigos e sentir o afago conterrâneo.
Parece que São Sebastião converte toda essa gente. Muda-lhes os hábitos. Faz-lhes acordar cedo ao estridente som da flauta de lata (saudades de Maurício-Toca-Flauta!) e ao retumbar da caixa de guerra, em animada peregrinação pelas ruas, anunciando a alvorada de um novo ano.
No sábado, véspera da solenidade de levantamento do mastro, é dia da “corrida da bandeira”, na qual a bandeira é levada em desfile pelas ruas, parando de casa em casa para pregações, cantorias, orações e recolhimento de ofertas.
Dia seguinte, todos irmanados, tomados pelo alegre espírito infantil, dirigem-se, como carreirão de formigas, à mata para a solenidade da puxada do mastro da bandeira, já derrubado. O mastro é enfeitado com flores e folhas viçosas e carregado nos ombros dos adultos, levando a criançada nele montada, a percorrer as principais ruas da vila, até alcançar o pátio da Igreja. No trajeto, são entoadas canções religiosas, ladainhas e cantigas da cultura negra local. No pátio, o mastro recebe a bandeira de São Sebastião, é fincado no chão, sob ensurdecedor foguetório, repique de sinos, palmas, louvações, toques de caixa, flauta, pandeiro etc.
Fim de semana subsequente, a presença nas ruas dos exércitos vermelho e azul – dos mouros e cristãos – faz a memória voltar a saudosos atores de antigamente, do tempo de criança. Lembranças de seu Manoel Apolinário, Rei dos Cristãos, com sua exuberante capa azul brilhante contornada por plumas brancas. Chapéu espelhado e, nas mãos, o cetro símbolo de sua suprema autoridade. A seu lado, a figura esguia e ágil de Totonho Augusto, o embaixador, e de Henrique Zacarias, capitão do exército azul com o árduo mandado de trazer os mouros para o cristianismo.
Do outro lado, a igualmente expressiva e imponente presença de seu Simeão, Rei dos Mouros, dentro de seu traje vermelho, brilhante como rubi, bem mais espelhado. Sempre secundado pelo capitão, Idelfonso, e pelo embaixador Benedito Lima.
Cada exército é representado por sua bandeira, a dos mouros ostentada por Antônio Come-Coco e a dos cristãos por Custódio, ambos refletindo profundo orgulho de suas funções. Os corpos de batalha compõem-se de guerreiros armados de espadas metálicas, atiradores, além de crianças com redes e ganchos ferinos.
Momento de alta emoção, de prender a respiração dos presentes é quando os guerreiros se exibem, cada um a seu tempo, como soldados decididos a dar o sangue por suas crenças. E, assim, o embate ganha seu rito inicial. No primeiro ato, os embaixadores buscam, de um lado e de outro, convencer o adversário a capitular (desistir da guerra). São discursos duros e ameaçadores que chegam a assustar. Afirmam e reafirmam a certeza da vitória. Alegam maior e melhor poderio bélico e impiedosos soldados, prontos a aplicar no adversário suas aptidões marciais sanguinárias. Vale muito registrar o teor do discurso de cada embaixador, bem como a valentia e a teatral retórica usada. Alguns deles deixaram suas marcas, como Peri, de Malvina e seu sotaque “língua presa”. Benedito Lima com seu gestual agressivo e ameaçador.
Esgotadas as tentativas de capitulação, os dois exércitos partem para o confronto, ao toque de caixa, flauta e tiros. Digladiam-se por um bom tempo tintilando suas espadas, muitas vezes esfolando-se no chão, como se revivessem a realidade das batalhas medievais.
Ao fim da festa, com o domínio dos cristãos e a conversão dos mouros ao cristianismo, reserva-se um tempo para a prosa que resgata a lembrança e saudade de grandes mouros e cristãos: Macuco, Amâncio, Keti, Onofre, Anito, Eusébio e muitos outros que já deixaram nosso convívio terreno, mas lembrados a cada batida de espada em louvor a São Sebastião.
É assim que se mata saudades dos tempos de criança em Helvécia.
*Roberio Sulz é biólogo e biomédico pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. E pensador por [email protected]

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