Internet e liberdade

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A chapa está esquentando na Internet quando se fala de política. E como se fala! De repente, todo mundo descobriu que as chamadas redes sociais, principalmente o Facebook, encarnam o mais eficiente nicho de interação social, dispensando e ultrapassando rádios, televisões, jornais, revistas etc. Participam dessa rede, no Brasil, quase 100 milhões de usuários. É uma fantástica ferramenta de comunicação. Diferentemente de outras, onde o tradicional formato é um agente dirigindo-se a pacientes, nas redes sociais, pratica-se a verdadeira comunicação, segundo seu moderno conceito. Nela pouco ou quase nada evolui sem a interlocução, sem a mútua manifestação. Outro aspecto valioso dessa mídia é sua natureza democrática. Todos podem falar e expor suas experiências, ideias e projetos, sem censura. Liga-se a quem interessa e desliga-se de quem incomoda.

Essa comunicação, livre de amarras, comandos e medos obviamente desgosta os pretensiosos plantadores de versões – os imperadores da grande mídia. Os profissionais da mentira, da calúnia e da ilusão não suportam a contraposição, o contraditório. Aproveitam-se do fluxo de sentido único da sua mídia para empurrar descaradamente goela abaixo imposições e fantasias. Nem se lixam para as irresponsáveis consequências. Abrigam-se covardemente sob o manto da discutível “liberdade de imprensa”, que, na verdade, termina sendo um valhacouto dos proprietários da grande imprensa.

Graças às redes sociais, a grande mídia vem perdendo espaço para uma discussão inclusiva, mais livre, mais ampla e descomprometida com os valores e interesses econômicos plantados por seus financiadores. Para felicidade geral, o Facebook, até agora, tem-se mostrado refratário ao domínio do clube dos privilegiados.

Aleluia! Há muito precisávamos dessa novidade da internet, das redes sociais, do Facebook para arrebentarmos os grilhões a nós aplicados pelos “experts” da falsidade.

Mas, é claro que a liberdade assim escancarada e sem restrições de acessibilidade assemelha-se a um “big-bang” social. Tende a formar um conjunto anárquico que se dispersa continuamente em inúmeras direções. A energia de agregação largada para trás torna-se minoritária e insuficiente para deter a entropia social. Quem estava na periferia no núcleo original continua na extremidade do conjunto disperso. Só que, agora, mais perdido e dissociado. Está no limbo, em situação caótica, com enorme dificuldade interativa com seus pares e com o núcleo. As tentativas de retornar no tempo e no espaço são extenuantes. Sua contínua desconexão termina alimentando ainda mais o estado caótico da órbita onde está inserido. Essa situação coloca-o em um cenário desvairado. A balbúrdia acaba sendo sua vocação e sua animação.

Essa metáfora do big-bang social é para ilustrar como a ampla e irrestrita liberdade termina mantendo um núcleo com boa coesão. Forja, por outro lado, uma periferia de baixa sociabilidade, revoltada e impregnada de energia dispersiva. Sem alternativas, sobra-lhe como motor principal a revolta, a ira e a guerra destrutiva contra a coesão nuclear.

Também, para a liberdade propiciada pela internet, vale a metáfora do barril de melado, onde, na ânsia, os mais avexados competidores terminam por se lambuzarem sendo condenados ao ataque de “desprezíveis” formiguinhas sociais.

Porém, por incrível que pareça, os abusados, lambuzados e dispersos no universo da liberdade são de fácil reconhecimento. Na Internet, comportam-se, uns como caipiras inocentes com olhar de paisagem na cidade grande. Outros como o raivoso e ameaçador valentão capaz de convencer na força, derrotar e trucidar qualquer adversário com suas grosserias mal grafadas em “caixa alta”. Alguns, indignados com a adversidade, chegam a se julgar donos do poder e da vontade alheia. Mas, quase todos eles encardidos pela mácula extremista, inspirada na truculência dos regimes nazifascistas de extrema direita. Alguns, useiros e vezeiros na arte de provocar. Outros, já com histórico de violência em suas vidas, segundo Thiago Tavares Nunes, da Safernet, que monitora e denuncia crimes na Internet.

Essas figuras aproveitam-se da liberdade e do anonimato – usam fakes – para transformar suas palavras em peças de artilharia, rancor e hostilidade. As polêmicas eleitorais do momento dão ótimo caldo de cultura para esses macróbios. O anonimato propicia uma lamentável exibição de covardia que, por vezes, termina contaminando a ingenuidade dos ignorantes.

Ainda assim, as redes sociais são diferenciados instrumentos de plena e franca comunicação que permitem inovação no processo de interação social. A vantagem disso é forçar os príncipes da mídia escrita, falada e televisada a refluírem sua arrogância de formadores de opinião e de grandes eleitores de poltrona.

Sem dúvida, no caminho que vai, ainda carece de boa regulamentação para não ser distorcida nem abocanhada pelos poderosos donos da imprensa.

*Roberio Sulz é professor universitário; biólogo, biomédico (B.Sc.) pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. [email protected]