Feira de Sábado: retrato da má educação do motorista teixeirense

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Carros e motos vêm de ambos os lados e se encontram na divisa formada pelo ônibus, não sendo possível romper esta barreira sem que um ou outro desista de passar, dê ré e ceda; enquanto o isso: o motorista do ônibus ninguém viu.
Carros e motos vêm de ambos os lados e se encontram na divisa formada pelo ônibus, não sendo possível romper esta barreira sem que um ou outro desista de passar, dê ré e ceda; enquanto o isso: o motorista do ônibus ninguém viu.

Teixeira de Freitas – Segundo relatório divulgado pela Tomtom – empresa holandesa de tecnologia de transporte – divulgado em 12 de novembro de 2013 sobre as piores cidades para dirigir no mundo, Rio de Janeiro e São Paulo aparecem no ranking das “10 mais” em 3º e 7º lugares, respectivamente; a capital fluminense perde apenas para Moscou e Istambul. Conforme informações divulgadas na “Folha” na época, 169 países foram estudados com base em dados enviados por usuários de GPS da Tomtom que concordaram em ceder as informações de localização anonimamente. A matéria diz ainda: “A empresa não divulga o número de aparelhos que foram usados para o estudo, mas libera que 1,1 bilhão de ‘corridas’ compuseram os dados relacionados à capital paulista e 200 milhões os do Rio de Janeiro. A base são as ‘principais vias’ de cada metrópole. Compara-se a diferença entre a média de velocidade dos horários de pico (entre as 7h e as 11h e entre as 18h e as 22h) e a dos horários de trânsito livre”.

Trânsito mais violento do mundo

O Brasil é o terceiro país com o trânsito mais violento do mundo, tendo a imprudência como principal causa de acidentes. Teixeira de Freitas, embora não inclusa no estudo da empresa holandesa, poderia, facilmente, estar entre as dez mais, tendo em vista o caos que é nosso trânsito, sobretudo, em locais como a Feira de Sábado, no Mercadão Municipal, onde nossa equipe de reportagem flagrou diversas cenas de desrespeito às leis de trânsito que culminam em acidentes e desordem.

Mudaremos o tom de nossas matérias nesta, ao escrever com base em nossa opinião, que é consonante a de muitos usuários de trânsito que ouvimos ao longo de um mês – período em que nos dedicamos a ir à feira e analisar o comportamento dos motoristas –, além do que vivenciamos diariamente ao longo dos anos, seja como pedestres, seja como motoristas, somos partícipes ativos deste trânsito. Verificamos na feira que as pessoas estacionam seus carros, muitos de porte grande, no meio da via, inviabilizando a passagem de outros veículos. Elas, parecendo alheias ao Código de Trânsito, se embrenham feira adentro e, enquanto isso, buzinaços, xingamentos, engavetamentos ocorrem por conta do veículo erroneamente estacionado no meio da rua e – ainda – em local de muito movimento. Cabe citar ainda motoristas de ônibus que agem da mesma forma, muitas vezes, em ruas estreitas, “trancando” a via, causando confusão, pois, carros e motos vêm de ambos os lados e se encontram na divisa formada pelo ônibus, não sendo possível romper esta barreira sem que um ou outro desista de passar, dê ré e ceda; enquanto o isso: o motorista do ônibus ninguém viu.

Estes relatos são poucos e sucintos sobre tudo que acontece na Feira de Sábado e representam apenas a raiz dos males em nosso trânsito, eles deixam claro quão mal educados são nossos motoristas e, com isso, sabemos o porquê de tantos acidentes com vítimas fatais em Teixeira, cuja frota é de mais de 30 mil veículos e 15.507 (quinze mil e quinhentas) motos, além dos veículos de mais 12 municípios que aqui concentram suas compras. Há, também, aqueles que passam pela BR-101 e percorrem ruas da cidade, o que pode elevar para, aproximadamente, 70 mil este número – entre motos e carros. Entretanto, a falta de atenção de motociclistas e pedestres ainda é uma causa constante de acidentes, o que eleva as estatísticas nos hospitais e IML. De acordo matéria que divulgamos em 2012, Teixeira de Freitas, em 2011, teve registrado 1.804 acidentes de trânsito – a maioria deles acontecida na principal avenida da cidade, a Presidente Getúlio Vargas. Nos acidentes registrados naquele ano, estavam envolvidos “2.050 automóveis e 792 motocicletas, além do envolvimento também de cerca de 80 bicicletas e duas carroças. Quanto à inclusão de pedestres nos dados, ocorreram 70 atropelamentos, dos quais três resultaram em vítimas fatais, 25 ocasionados por motocicletas e 45 por carros. Ao todo, 401 pessoas foram lesionadas e 15 perderam suas vidas no trânsito da cidade no ano passado – as motocicletas foram responsáveis por 11 das mortes, e os veículos, quatro. Apenas nesse ano [2012], já aconteceram 215 acidentes e 2 mortes, causadas por colisão envolvendo motocicletas”.

Na época, fomos informados que 3.127 veículos foram notificados em 2011, “dentre os quais, foram flagrados 459 motoristas sem habilitação, 897 estacionados em local proibido e 441 sem portar o Certificado de Registro e Licenciamento de Veículos (CRLV)”, todavia, o número de motoristas sem habilitação não responde a uma de nossas indagações: os usuários de trânsito desconhecem o conteúdo do Código de Trânsito? Os dados apenas confirmam o que sabemos: os habilitados (com Carteira Nacional de Habilitação) passaram por autoescola em sua grande maioria, mas, parecem ter esquecido e/ou não entendido a aplicabilidade das leis, bem como os riscos que assumem ao dirigir de forma irresponsável. A quantidade que dirige sem ter tirado CNH é ínfima diante da enorme frota de motos e carros que o município possui, restando a dúvida sobre a qualidade dos cursos de formação de condutores aqui ofertados, uma vez que, a grande maioria habilitada tirou a carteira nos últimos 10 anos, ou seja, está a par das alterações e sansões previstas nas leis de trânsito, exceto se a base – a formação – não está dando subsídios para formar um condutor cidadão. Ainda assim, fica a pergunta: para onde vai o que as pessoas estudam para passar na prova teórica do Detran? Estariam apenas decorando as leis, o que é passível de esquecimento, e não aprendendo, de fato?

Problema cultural / de geração em geração

Trânsito de terceiro mundo na Feira de Sábado em torno do Mercadão.
Trânsito de terceiro mundo na Feira de Sábado em torno do Mercadão.

Ao que parece, está se tornando um problema cultural – como tudo aquilo que começa a se arraigar no povo e é passado como herança maldita de geração em geração. No caso de nosso trânsito, não apenas decorar o CTB, que é diferente de aprender, comprovando a baixa maturidade dos recém-habilitados, a frase: “dirijo por mim e pelos outros” dita por 90 % dos condutores comprova a ciência da maioria sobre os perigos de trafegar em Teixeira, entretanto, demonstra a aceitação diante deste fato; o que é um problema. Ao aceitar, pouco é feito para dirigir diferente, aprender a forma correta, pois, tende-se a se adequar a uma maneira errada e defensiva de conduzir a fim de sanar os problemas impostos pelos “irresponsáveis”, embora contribua para não elevar ainda mais o número de acidentes. Veem-se muito motoristas falando ao celular, motoqueiros idem – com o aparelho dentro do capacete, conversões proibidas, desrespeito à faixa e/ou, quando o motorista para, os motoqueiros ultrapassam e atropelam o pedestre, como acontece muito por aqui. Somam-se a isso os ciclistas que insistem em andar sempre na contramão e pedestres que preferem se arriscar atravessando em locais impróprios, enfim, tudo que é aprendido no Código de Trânsito Brasileiro (CTB) é desrespeitado.

Esperança de que medidas mais duras sejam tomadas

Espera-se que medidas mais duras sejam tomadas pelos órgãos responsáveis, aqui e no país, e uma fiscalização mais efetiva ocorra, porque isto já diminuiria os erros mais comuns vistos em Teixeira, como dirigir e falar ao celular e as conversões em locais proibidos, por exemplo. Em âmbito nacional, o Projeto de Lei 3068/2011 do deputado Roberto de Lucena, por exemplo, altera a redação do art. 306 do CTB para permitir a prisão em flagrante do motorista que, em caso de embriaguez evidente, se recusar a prestar exame de aferição de alcoolemia. A prisão é feita mediante depoimento de duas testemunhas que confirmem a embriaguez evidente.

Também de sua autoria, o PL 2782/2011 aumenta as penas previstas no Código de Trânsito em um terço e prevê a cassação do documento de habilitação para motorista alcoolizado que estiver transportando criança com menos de doze anos. Por sua vez, o PL 2246/2011 autoriza a comutação da penalidade de suspensão do direito de dirigir em prestação de serviços comunitários na área de proteção e preservação ambiental conforme análise do prontuário do infrator. Da redação do Jornal Alerta.