Por Roberio Sulz*
No início de Brasília, bailes no Clube Rabelo na Vila Planalto eram muito concorridos. O ambiente não comportava todos que gostariam de estar lá dentro. No sufoco, mesas para quatro acolhiam cinco ou mais pessoas. Pista de dança congestionada, principalmente quando, na penumbra, a orquestra de Raulino executava músicas celebrizadas por Ray Conniff, Românticos de Cuba, Billy Vaughn, Frank Pourcel, Henry Mancini, Glenn Miller, Percy Faith etc.
Foi no baile “Uma noite no Havaí” do Clube Rabelo que Fádua estreou sua presença e participação na comunidade rabelense. Além da simpatia, da alegria e da graciosidade notada e valorizada por todos, quase nada mais se sabia sobre aquelas novatas e sua família.
Raramente negava convite para dançar. Curtia o suave ritmo dos passos. Agarradinha, com o rostinho colado, parecia sonhar ao receber bicotas disfarçadas, ouvir versos e galanteios cochichados ao pé do ouvido e outros chamegos.
Linda filha de seu Jamil, libanês radicado no Brasil e – naquela época – experimentando um comércio de confecções populares na Vila Planalto. Simples instalações de madeira abrigavam a loja, como também sua residência. Viera para Brasília de Paracatu/MG, para onde migrara ainda recém-casado e se estabelecera com sua esposa Nádia, depois de desembarcarem no porto de Santos/SP. Tiveram duas filhas mineiras, Mayla, a primogênita, de corpo graúdo e sério, e Fádua, com dezoito anos recém-completados, mas, com físico e jeitinho alegre de adolescente, sempre a exibir simpatia e sorriso. A diferença de idade entre as duas parecia bem maior que os reais três anos. Ao contrário da irmã mais velha, a jovem fazia-se bem descolada e facilitava a paquera.
Nas relações familiares, Fádua era o xodó do pai. Recebia carinho e atenção especiais, não lhe faltando roupas novas e perfumes de qualidade. Por sua índole liberal, era guardada como joia sob permanente monitoramento contra investidas de “gaviões”. Sabia-se que seu Jamil se mudara para Brasília quase foragido, em razão de ter contratado três fortes meganhas para dar corretivo caprichado num cidadão casado, de meia idade, que já andava muito aproximado de Fádua.
Após o baile do Havaí, Fádua passou a frequentar e participar dos programas sociais da chamada turminha da Rabelo. Não perdia os melhores eventos do Clube: bailes, bingos, festa junina e ensaios de quadrilha e outros tipos de reunião. Inclusive, aos domingos para um simples bate-papo, cantar com Jeremias e Isaias ao violão, ler jornais e revistas, ouvir mentira, jogar “escravos-de-jó” e outras inocentes, mas divertidas, atividades. Fádua passou a frequentar também o Motonáutica, clube massivamente preferido pela comunidade vilaplanaltense.
Seu Jamil não afrouxava a vigilância, fazia questão de levar e buscar as filhas em sua vemaguete, fossem para onde fossem. Pastorava Fádua com a atenção de pai coruja encharcado de ciúmes. Só aceitava suas ausências de casa na companhia da irmã Mayla, segundo ele, mais ajuizada e rigorosa “vela” para as eventuais tentativas de descaminho de Fádua.
Ainda assim, Fádua escapava à vigilância. Procurava namorar eclipsada dos olhares abelhudos atrás de biombos diversos, fosse um cantinho, uma moitinha etc. Mas, nunca o interior de automóvel, Mayla advertia. Namoro fixo, continuado, não lhe parecia o melhor. A rapaziada não demorou a descobrir essa sua faceta e aguardar na fila.
Não raro, a turma da Rabelo programava algo que quebrasse a rotina dos domingos. Pescaria, piquenique e churrasco num sítio ou na margem de algum rio, visita à chácara de João Grossi no Lago Sul, baile na roça, sarau no Bancrévea, em Sobradinho etc.
Certa vez, partiu-se para uma festa caipira na fazenda de Euzébio Tavares, nas proximidades das cachoeiras do Rio Corumbá, em Corumbá/GO. Euzébio, jovem engenheiro de construtora Pederneiras, era enturmado com o pessoal da Rabelo. Seresteiro assíduo nas serenatas. Fazia aniversário naquele domingo. Em sua fazenda, criava gado de leite e tinha um variado pomar com mangueiras, jaqueiras, citros, cana, abacaxi e outras fruteiras. Muitos foram em seus próprios veículos, até seu Jamil, sua esposa e as filhas. Hemitério levou uns oito na boleia e na caçamba de sua Ford F100. Mais de 15 pongaram num caminhão cedido pela Rabelo.
Amplo casarão acolhia a todos para a troca de roupas, uso de banheiro etc. De almoço foi servida feijoada regada a caipirinha, cerveja e refrigerante. Pelas três, começou uma tarde dançante animada por trio nordestino num amplo salão circundado por cadeiras e sofás.
Fádua não perdeu tempo. Desde cedo garrou namoro com Felipe, do Acampamento Pacheco Fernandes. Dançaram sob os atentos olhares de seu Jamil. De repente sumiram. Mayla, mandada a procurar a irmã, foi achá-la na brenhas da mata ciliar do rio. Aos brados ordenou seu retorno imediato, informando que seu pai já sentira sua falta e estava aborrecido. O casalzinho, com ares de bem comportado, logo após o regresso de Mayla, entrou no salão já dançando entre outros pares para disfarçar e evitar perguntas e repreensão.
Vestindo saia e blusa brancas, Fádua não se dera conta de ter trazido visivelmente presos às costas, indícios reveladores de onde e em que posição estivera com o namorado. Ainda deram voltas no salão antes de Mayla socorrê-la para remover os gravetos, folhas e ciscos que se destacavam em suas vestes.
Certamente seu Jamil e dona Nádia não chegaram a notar o vexame. Ou fizeram-se cegos em nome da paz?
*Roberio Sulz é biólogo e biomédico pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. E pensador por opção. [email protected]