Efeito catraca

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Gostaria de reproduzir aqui, em minha coluna, a íntegra do artigo AS PESQUISAS COMO PROPAGANDA POLÍTICA, de Pedrinho Guareschi, Ph.D, meu colega na Universidade de Wisconsin, USA, ao tempo em que cursava seu doutorado em sociologia. Mas, por limitação de espaço, permito-me, com anuência do autor, fazê-la comentada, indicando a leitura de sua íntegra, publicada na edição 814, do Observatório da Imprensa, em 02/09/2014.

Pedrinho aborda, com ímpar felicidade, o descaramento da grande mídia ao propagandear suas preferências políticas, sem conseguir disfarçar seus subjacentes outros interesses de ordem serviçal, empresarial e pessoal. A moda agora é sepultar a ética usando o disfarce das pesquisas de opinião. A imparcialidade já faz tempo que foi para o sal. Deu lugar ao ódio e à perseguição.

Divulgam-se pesquisas feitas do dia para a noite. E só Deus sabe – e certamente não gosta – como são feitas e para que servem. Os resultados são analisados e escovados à exaustão nas redações por permanentes equipes de profissionais, pagas a peso de ouro. É por aí que se destacam resultados regionais ou por categoria de entrevistados que melhor projetem favorecimento ao candidato preferido ou ameacem o opositor. Isto é, que atendam a seus clientes. Na falta ou na impossibilidade legal de publicarem capas e páginas inteiras cantando loas a seus candidatos, usam o artifício das pesquisas – a maioria fajuta – para externar propaganda do tipo, “vote com a maioria, não desperdice seu voto”.

Contudo, o furor tendencioso da grande mídia não para por aí. As entrevistas com candidatos são armadas maliciosamente para acuar ou ajudar – dependendo do interesse enviesado – o entrevistado com perguntas desenhadas em cima de falsas ou duvidosas verdades, antepostas como categóricos prolegômenos pelos entrevistadores. Como elucida Pedrinho, “quem comanda o espetáculo nessas entrevistas é quem detém o poder de fazer a pergunta, de escolher o assunto, de determinar o tempo de cada um para falar ou responder a determinadas questões. Examinando as entrevistas feitas pela Globo, por exemplo, vê-se claramente que as perguntas feitas são muito mais respostas que perguntas. Já é transmitida toda uma mensagem nas perguntas. Elas são afirmações categóricas sobre os erros e os malfeitos dos candidatos e partidos e são colocadas como se fossem verdades inquestionáveis”. A estratégia é reservar a conclusão para o juízo do inquiridor, sem direito a contestação.

Outro aspecto apontado pelo professor Pedrinho Guareschi para o que está acontecendo nesse momento no Brasil com as pesquisas de intenção de voto dos candidatos à Presidência da República é o EFEITO CATRACA. Artifício usado pelos estrategistas da mídia dominante para reforçar uma pesquisa divulgada com outra imediata (às vezes, com menos de um dia de diferença) de igual ou semelhante resultado. Sem dar tempo para aportarem-se dúvidas. Tal qual um expositor (ou impositor) de razões, em processo repetitivo e incisivo, ao não conceder ao interlocutor ou expectador tempo para analisar nem contestar suas assertivas. Valem-se os estrategistas da propaganda eleitoral de uma novidade permissiva, a de divulgar pesquisas apenas protocoladas – não registradas – junto à Justiça Eleitoral. Pedrinho explica melhor esse fenômeno: “efeito catraca… é a retroalimentação de um fato sobre outro (no nosso caso, de uma pesquisa sobre outra), de tal modo que um fato ajuda o outro a crescer, assegurando e garantindo o patamar a que se chegou – seriam as consequências e os efeitos que o fato produz”.

Outra estratégia da mídia milionária foi promover Marina Silva como candidata capaz de derrotar Dilma (seu objetivo principal), adotando uma postura nítida de quem não mais aposta no sucesso do seu candidato Aécio. Com a trágica morte de Eduardo Campos, aproveitaram o “momento, o tempo surpresa que os gregos chamavam de kairós, em contraposição ao kronos, o tempo rotina” (Guareschi, 2014). Exploraram ao máximo – por mais de cinco dias – as condolências. Fizeram do fato comoção nacional, angariando-lhe todas as atenções. Souberam usar o episódio como forte contágio social. E, quando no ápice do efeito contagiante, fizeram a pesquisa de intenção de votos. Não deu outra coisa. Marina em extraordinária disparada. E, para não ocorrer retrocesso, nem perder o passo, fizeram em sequência – menos de dois dias depois – outra pesquisa para confirmar e reforçar aquela. Ou seja, aplicaram eficazmente o “efeito catraca”. E continuam a usá-lo intensivamente como efetiva ferramenta de manutenção, certos de que a candidatura Marina alavancou-se a reboque da comoção plantada pelo “sensacionalismo” midiático e, mais certos ainda, de que “sensação” é coisa que dá e passa. Pode não durar até cinco de outubro.

*Roberio Sulz é professor universitário; biólogo, biomédico (B.Sc.) pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. [email protected]