Dr. Oséas evita críticas a Zulma Pinheiro e diz que hospital não tem mais condição de manter convênio com o SUS

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Por Edelvânio Pinheiro

Quem aguardava um posicionamento político do médico Oséas Moreira Lisboa, na sessão da Câmara Municipal de Itanhém, sobre a atual situação do Hospital Maria Moreira Lisboa, foi surpreendido com um discurso com teor empresarial. Ele é um dos quatro diretores do hospital e ocupa a secretaria da Agricultura e Abastecimento na administração da prefeita Zulma Pinheiro

O médico, que já foi prefeito do município de 1997 a 2000 e é pai do atual vice-prefeito André Lisboa, na verdade, mudou o discurso que fez durante todo o período eleitoral sobre a saúde.

Nas últimas eleições, durante um comício realizado no dia 27 de agosto, na praça Otávio Mangabeira, Oséas Moreira estava convicto de que Zulma Pinheiro investiria no único hospital da cidade.

“De 1982 até agora, nós ajudamos a eleger cinco prefeitos e nenhum desses cinco prefeitos ajudou a cidade a voltar a crescer e nem ajudou o hospital, que atende 95% da população”, disse, naquela ocasião, acrescentando que havia ‘mudado de lado’ porque ‘tomou vergonha na cara’.

Já na sessão da Câmara de Vereadores da última quinta-feira (13), Oséas Moreira culpou todas as esferas pela crise no atendimento médico-hospitalar no município de Itanhém: ele foi duro com o governo Federal pelos problemas no SUS e criticou a falta de investimento do Estado, mas, se não defendeu, poupou a atual administração.

“O hospital não tem mais condição de manter nenhum tipo de convênio com o SUS”, foi taxativo. “Nos dói muito ver que os governos, principalmente federal e estadual, querem privatizar o SUS”, lamentou. “E a prefeitura, poderia manter isso?”, questionou. “Não acho que sozinha tinha condição e a prefeita já sinalizou que não tem condição”, completou.

É inegável que, antes da nova administração assumir a municipalidade, havia uma expectativa não apenas dos diretores do hospital como também de toda a população de que Zulma Pinheiro fosse investir nesse setor, que é o mais carente do município. Até mesmo porque, no dia 2 de setembro, durante um comício na Rua São José, no bairro São João, a então candidata Zulma Pinheiro agradeceu o apoio de Oséas Moreira, a quem ela chamou de ‘grande liderança’ e foi dura com a administração anterior, criticando a forma como a saúde estava sendo conduzida.

“A grande liderança Dr. Oseas está aqui. A saúde, vocês muito bem conhecem, não existe mais saúde em Itanhém. A secretaria é inoperante, só sabe receber os exames e pedidos de exames e engavetar. Juntamente com Dr. Oséas e toda nossa equipe iremos fazer a diferença se Deus quiser”, disse Zulma Pinheiro, na ocasião.

Também na sua posse, no dia 1º de janeiro, no Ginásio de Esportes, a nova chefe do Executivo, que foi apelidada pelos seus correligionários de “A mãe da saúde”, reafirmou apoio ao Hospital Maria Moreira para a manutenção do atendimento médico-hospitalar da população.

“Na saúde, teremos uma parceria com o Hospital Maria Moreira. É nosso compromisso assegurar que a população receba uma oferta de serviços dignos em todas as unidades de saúde do município”, garantiu Zulma no primeiro dia do seu mandato.

Bentivi

O médico Oséas Moreira, no plenário da Câmara de Vereadores explicou que o hospital tem 35 funcionários e que isso custa mensalmente para a empresa algo em torno de R$ 40 mil. Disse ainda que o plantão diário de um médico corresponde, no fim do mês, a R$ 45 mil. Para cobrir outras despesas hospitalares seriam necessários ainda mais R$ 35 mil. Todos esses valores somam R$ 120 mil que, de acordo com Oséas Moreira, daria para fechar a contabilidade do hospital, ainda que de forma apertada.

Com um discurso bem concatenado e também cronológico, Oséas Moreira lembrou até dos motivos históricos que motivaram a criação do Hospital Maria Moreira em Itanhém, citando um paciente que teve meningite e foi tratado, mas se esqueceu da participação da Prefeitura Municipal na manutenção do hospital, nos dois mandatos do prefeito Milton Ferreira Guimarães, o Bentivi.

Em meados do primeiro mandato de Bentivi, R$ 12 mil e 500 saiam dos cofres públicos para socorrer o hospital de Oséas Moreira todo mês. Já no segundo mandato, de 2013 a 2015, esse valor aumentou para R$ 15 mil e 625. Em valores atuais, seria o equivalente ao pagamento de mais de um terço dos funcionários da empresa ou ao pagamento da mesma fração de médicos plantonistas. Mesmo assim, a contribuição não foi lembrada em nenhum momento do discurso.

O discurso

No plenário da Câmara, inicialmente, Oséas Moreira – que é o primeiro medico de Itanhém –  falou de sua trajetória na medicina e pontuou o que ele e sua empresa fizeram em prol da população itanheense ao longo dos 40 anos de existência do único hospital da cidade.

A essência de seu discurso foi em torno da queda das finanças do Hospital Maria Moreira Lisboa nos últimos 15 anos, numa clara tentativa de justificar o audacioso projeto que a empresa tem para, definitivamente, tornar o hospital particular.

Para efeito de equivalência, Oséas usou a quantidade de salários-mínimos que o hospital recebia de programas do estado e fez comparações até o último trimestre de 2017.

Em 2002, o hospital – de acordo com o médico – recebia do Sistema Único de Saúde (SUS) algo em torno de 241 salários-mínimos. No ano seguinte passou para 219 salários. Em 2004, a cota que a unidade de saúde recebia do estado pulou para 260 salários-mínimos e reduziu para 203, no ano seguinte.

“Essa verba era suficiente, inclusive, para contratar e treinar funcionários, realizar cirurgias e o hospital funcionava em plena capacidade”, disse Oséas Moreira.

A partir daí – segundo ele – esse valor apresentou constantes quedas.

A queda nessas verbas teria sido a causadora do sucateamento do hospital e da dívida atual de mais de R$ 250 mil, de acordo com a fala na sessão da Câmara de Vereadores, no dia 2 de março, do médico cirurgião Levi Moreira de Souza, que também é sócio do hospital e para quem responsabilidade do problema da saúde em Itanhém é controvertida.

Depois do ano de 2006 – de acordo com as informações de Oséas Moreira na Câmara – a queda da verba recebida pelo hospital para atender a população de Itanhém foi vertiginosa. Nesse ano, o valor pulou do equivalente a 203 salários-mínimos para 182.

“De lá pra cá as coisas foram descendo gradativamente [de modo que], a cada ano, a gente recebia menos. Todos os anos a correspondência em salários era cada vez menor e nós chegamos em 2013 com 146 salários-mínimos por mês”, afirmou Oséas.

Nos anos seguintes – ainda de acordo com Oséas Moreira – a queda foi ainda maior. Em 2015 a verba mensal do SUS passou a equivaler 98 salários-mínimos e, em 2016, a unidade de saúde passou a receber, em média, apenas o equivalente a 70 salários-mínimos. No primeiro trimestre de 2017, o hospital recebeu mensalmente algo entre R$ 60 mil a R$ 62 mil, o que seria equivalente a aproximadamente 68 salários-mínimos.

Oséas Moreira estava convicto de que Zulma Pinheiro investiria no único hospital da cidade.

Plano de saúde

Grande parte do discurso de Oséas Moreira foi relativo à estratégia dos diretores do hospital para salvar a empresa deles que, como se sabe, está endividada e sucateada. Ele apresentou um plano que, nada mais é do que a extinção do atendimento público no único hospital existente na história do município de Itanhém.

“Estamos tendo um prejuízo de R$ 20 mil a cada mês. Já solicitamos consultoria do Sebrae e nosso projeto no futuro é incrementar todos os convênios que for preciso. Já temos convênios com a Unimed, Cassi e estamos batalhando o convênio com o Planserv, que nos permitirá atender professores e demais servidores públicos do estado”, disse o médico, enfatizando que o hospital estuda fazer planos de saúde específicos para pessoas e empresas.

Segundo Oséas Moreira, o objetivo da diretoria é manter o hospital funcionando com 97% de atendimento particular e 3% como indigente. Indigente foi o termo escolhido pelo próprio médico e citado por pelo menos duas vezes em seu discurso, muito provavelmente para referir-se àqueles que não têm nenhum condição de se enquadrar dentro do projeto comercial do Hospital Maria Moreira.

“Vamos vender esse serviço para as prefeituras. É viável porque a prefeitura de Ibirapuã já firmou um convênio com a gente e estamos em via de firmar um convênio com a prefeitura de Itanhém”, explicou Oséas Moreira, dizendo que a diretoria do hospital já contatou as prefeitura de Jucuruçu, Vereda e Lajedão e que todas elas estão dispostas a comprar os serviços da unidade de saúde.

Oséas Moreira ainda apresentou a alternativa de vender cotas da empresa, o que transformaria o Maria Moreira em um hospital comunitário.

“Em vez de quatro sócios, teríamos dezenas ou centenas de sócios, [os demais], se não pudessem ser sócios fariam um plano de fidelidade, como se faz em funerárias e iria pagar 10, 20, 30, 40 ou 50 reais e ter as vantagens como abatimentos em consultas e internamentos”, explicou.

Responsabilidade

Oséas atribuiu responsabilidade à União pela decisão da diretoria de tornar particular o atendimento do Hospital Maria Moreira Lisboa. Ele citou a PEC-55, que congela os investimentos do governo para os próximos 20 anos.

“A mensagem que o governo nos transmite é que, em matéria de financiamento hospitalar ‘eu não tenho meios de financiar ou eu não quero financiar’. A culpa é de quem? A culpa é do governo Federal e não de Dr. Oséas e de Dr. Levi. [A culpa] é do Estado”, disse.

E, novamente, evitou críticas à administração de Zulma Pinheiro, a quem ele e todos do Hospital Maria Moreira Lisboa apoiaram nas últimas eleições.

“Se o estado não quer, se o governo federal não quer, a ponta mais fraca do governo é o município, dificilmente vai conseguir”, finalizou.

[Fotos de Epitácio Costa, do Itanhém Fest e reprodução Facebook]

 

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