Criatividade do humorismo

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Contam os mineiros, creio que José Maria Alckimim, que “o importante não é o fato, mas a versão dos fatos”. Itanhem é uma bela cidade, repleta de fatos, muitos controversos, poucos verdadeiros, mas ilustrativos e alguns inverossímeis. Falo de cátedra por lá ter nascido, ter minha mãe, meu pai, irmãos, avós e tios enterrados no cemitério particular da Fazenda Santa Clara, aonde breve chegarei, pois meu lugar está reservado ao lado de todos. Armando Nogueira, acreano famoso, redator da Rede Globo, por muitos anos, cronista esportivo, com muitos livros publicados, guardados por mim com muito carinho e observação, dizia que: “o craque vê a jogada, enquanto que o gênio antevê”. Isso referindo-se a Pelé. Ao que parece, segundo o noticiário de um jornal local, sobre o lançamento de um livro de um filho de Itanhem, Sady Teixeira Lisboa, era gênio. Informa o jornal que em 1935, Sady ouvindo a voz do Brasil, tomou conhecimento da existência de um povoado, que mais tarde receberia o nome de Itanhem. Ai carece de veracidade a informação. Ou então razão cabe a Zé Alckimim: “a versão dos fatos”. É de se notar a importância e relevância de Itanhem, pois antes de ser Itanhem, já era conhecida pela Voz do Brasil (A Hora do Brasil). Fato inusitado. Mais inusitado ainda, que sendo a Voz do Brasil (A Hora do Brasil) criada por Getulio Vargas em julho de 1935, por inspiração de Armando Campos, com o nome de Programa Nacional, Hora do Brasil, (Helio Silva), tenha Sady Teixeira, que chegou em Itanhem 1933, tomado conhecimento da localidade, por seu intermédio. Embora Armando Nogueira jamais tenha tomado conhecimento da existência de meu pai, já era ele considerado gênio. Por tais narrativas, muito bem humorísticas, é que Marco Pólo se tornou conhecido no mundo. Pelo que fiquei sabendo o livro é de piadas, é de humor. Assim sendo, tem direito a tudo, sobretudo de inventar, criar. A quem escreve historia cabe a obrigação de pesquisar. Sei que estou sendo leviano ao tecer tais comentários sem tomar conhecimento do conteúdo do livro, sem lê-lo, o que espero fazer quando a ocasião chegar. Aí então, reconsiderarei o que acabo de escrever ou não. O que me encanta e envaidece é a sapiência de Sady Teixeira, por demais por mim comprovada, já em 1935, sem radio, ouvia a Voz do Brasil, sendo por ela inspirado a tomar decisões. Como piada é valida, uma vez que Sady Teixeira chegou em Itanhem em 1933, quando Armando Campos não cogitava, sequer, criar o famoso honorário. Meu pai já tinha conhecimento do Arraial, o pequeno lugarejo, desde 1928, em uma viagem feita com meu avô Mariano Teixeira, ocasião em que se encontrou com o Sr. Fidelcino Viana, sogro de Ioiô da Farmácia, que pretendia vender a Lagoa do Vinho de Gaudêncio Gangá, para o velho Mariano. Na mesma época ficaram sabendo do início do lugarejo Água Fria, pelo velho Iluminato Bonjardim e outros Gangas, em Bertopolis, Umburatiba. Não pretendo contrapor ao bom humor do autor, com sua verve, inspiração e capacidade de exposição. Para mim, que sempre adotou o cognome de Princesinha do Extremo Sul, para Itanhem, apodado por Dr. Alberto Costa Dumas, é motivo de orgulho de saber que as demais localidades circunvizinhas, se ruborizam de inveja dos pequenos gigantes de Itanhem, que foi a primeira cidade (no extremo Sul) a inaugurar um Colégio Normal. Antigamente se dizia que Itanhem “gostava de ver estrago”. Itanhem cresceu, amadureceu, e o “estrago” agora é outro, é civilizado, é cultural e exemplar. Viva Itanhem, seus abnegados e valorosos filhos. Que assim continue para felicidade geral da nação e todos os seus pósteros, ainda que com informações canhestras e cacaborradas. Teixeira de Freitas, 14 de abril de 2012. *Ary Moreira Lisboa é advogado e escritor.