Por Uemerson Florencio*
Que a violência tem crescido em diversos níveis, isso já não é novidade há muito tempo em diversos estados brasileiros, uns mais que outros, claramente. Mas ela já tem se acentuado dentro e fora das próprias famílias – é uma enfermidade social, resultado dos mais diversos tipos de desequilíbrios. E, se tratando do ambiente escolar, temos casos – da gravidez indesejada ao abandono de fato de filhos a própria sorte. Você que é hoje pai ou mãe viveu esta realidade?
O acervo de situações é amplo e complexo, resguardada as particularidades de cada uma destas famílias. Testemunhamos relatos de diversos casos pelas próprias mães. São filhos que foram rejeitados desde o dia da notícia da gravidez, passando pela intensa jornada de rejeição ao longo da gestação, chegando ao nascimento com profunda insatisfação e angustia. Você que é mãe viveu ou vive este cenário de amargura?
A partir daí, muitas portas se abrem para diversos tipos de situações, são separações dolorosas, torturas psicológicas, escassez financeiras, abandono, falta de rede apoio para a mãe durante e após a gestação, entre outros. Mas ainda, temos os cenários de incertezas nos primeiros anos de vida da criança até o contato com o ambiente escolar. É o seu caso? Como tem enfrentado esta realidade?
As pressões sociais diversas, os conflitos nos relacionamentos “amorosos”, as crises e choques de geracionais, o medo do futuro, o sentimento de impotência, o crescimento acentuado do limiar da frustração – a baixíssima capacidade em saber lidar com as perdas, fracassos, danos ou prejuízos, em geral, são as pessoas do chamado “pavio curto”. São aquelas pessoas que já não tem paciência para colocar em prática nos momentos de dificuldades, ou seja, quando as coisas não saem como elas querem, elas explodem, gerando impactos negativos para si e/ou para os outros. Hoje, isso, é a sua realidade?
Uma grande parte desta realidade vinculada com outras tantas, geram profundo impacto na vida das crianças e adolescentes em geral. Já existem casos de famílias deixar de acompanhar os seus filhos depois dos sete anos de idade. Nessa caminhada tem crianças que buscam do seu jeito se organizar, mas tem outras que não tem nenhum suporte interno, mesmo porque é uma criança que requer atenção.
Quantas mães já soltam os filhos a própria sorte a partir dos dez anos? As vezes até, é a criança que faz a vez de “psicólogos dos pais”, sem qualquer estrutura para gerenciar as suas próprias emoções?
Algumas reflexões sobre as relações familiares e o ambiente escolar nos dias atuais:
– Porque será que ao fazer uma pausa na porta da escola, vemos diversos pais com a expressão de alívio ao entregar seus filhos? Para muitos, não é segurança por terem chegado a escola, mas pela certeza de que ficarão livres das suas próprias criações ou ainda, para muitos, ficarão livres dos seus problemas por um turno do dia.
– Poque qual motivo muitos pais chegam em seus carros tão presos no celular que nem olham para a descida dos filhos de seu veículo? Há casos de pais que voltam até o portão da escola para perguntar a portaria se o filho ou filha entrou no portão. Indicativo de total invigilância, desrespeito e displicência destes pais, mas sabem reclamar da escola quando chegam queixas.
– Porque poucos pais se despedem com afeto e respeito de seus filhos na porta da escola? Será que é vergonhoso ou constrangedor expor os seus sentimentos? Com a desculpa de que tem incentivado a autonomia dos seus filhos, simplesmente largam as crianças virem pelas calçadas totalmente desatentas para elas, presos nos celulares, não observam nem se um estranho poderá abordá-las.
– Porque tem mães que já chegam dizendo: “Trouxe para você professora!” Muitas ainda acrescentam na mesma fala: “Vai, vai, vai logo, ufa, alívio viu!” Esta é mais clara conduta que expõe a rejeição dos filhos, como se estivesse ficando livre de um peso por algumas horas e se pudesse lá permaneceria.
– Porque existem pais que ficam tristes quando os filhos estão de férias em casa? É algo para refletir: Acabou o amor ao filho tão desejado ou foi indesejado? Ou ainda, foi mantido por forças das circunstâncias e se pudesse terei dado outro rumo a situação?
– Porque muitos pais dizem para os seus filhos, tomara que chegue segunda para você ir para a escola? Qual é a ideia que os pais fazem da escola perante os seus filhos? A escola é onde eu lhe guardo por algumas horas, um ambiente de castigo ou prisão? Refletir não custa caro!
– Há pais que gritam no pé dos ouvidos dos seus filhos quando elas buscam algum tipo de afeto: “Já lhe dou de tudo, pago escola, compro material escolar caro, você quer mais o que?” Não tempo para frescura viu! Será que os vínculos foram trocados pela coisificação das relações onde eu lhe entrego coisas, bens materiais e já estou livre de outras responsabilidades?
– Como podemos esperar crianças e adolescentes mais respeitosos e alunos com senso de humanidade trabalhos no ambiente escolar, se a família tem dificuldade para entender o seu real papel na vida dos filhos?
Hoje testemunhamos pais que acreditam que a escola é o local onde tem papel de SAP – Serviço de atendimento aos Pais, no qual, eles têm consulta de como criar os seus próprios filhos. Não é um serviço incluso na matricula, quem estuda são os filhos, não os pais. O papel da escola é entregar a educação regular, não educação doméstica, como muitos desejam. Refletir, não custa caro, comece hoje.
*Uemerson Florêncio – Escritor. Treinador, palestrante e correspondente internacional onde expõe sobre a análise da linguagem corporal, gestão da imagem, reputação e crises. Graduando em psicopedagogia pela Universidade Estácio de Sá.


