Collares, o gaúcho

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Foi nos primórdios da década de oitenta, quando a Embrapa – já madura – capitaneava, com inédito entusiasmo e sucesso, a pesquisa agropecuária em todo o território nacional, gerando novas tecnologias para a produção de alimentos. Na época eu, com muita honra e orgulho, ocupava no Departamento Técnico Científico o cargo de “supervisor de pesquisa”, não formalmente contemplado no organograma. Coube-me a função de orientar e acompanhar, dentre outros, os programas nacionais de pesquisa de uva e vinho, coordenado pela Unidade de Bento Gonçalves, e de fruticultura de clima temperado, coordenado pela Unidade de Pelotas, ambas no Rio Grande do Sul.
Essa função implicava em preparar as reuniões de programação nacional e, ao longo do ano, verificar, in loco, a condução e o andamento dos projetos de pesquisa com o fim de avaliar sua perspectiva de sucesso. Apesar de esse mister parecer auditoria, na prática, aportávamos orientação e apoio demandados e reconhecidos como justos e adequados ao sucesso da pesquisa. Modéstia à parte, encarávamos o trabalho com extrema seriedade, mas sem a pompa que poderia ensejar.
Nas viagens ao sul, às vezes, contava com a companhia e o auxílio do colega Danilo Collares. Gaúcho de Bagé conhecia bem o Estado e seus conterrâneos, além de possuir boa formação em economia agrícola, ao nível de doutorado na França. Fantasticamente bem humorado, Collares animava e não me deixava ser tomado pelo cansaço. Mesmo nas entediantes esperas por conexão nos aeroportos, ele sabia aligeirar o tempo.
Seus gestos ao girar a cabeça conferiam-lhe graça especial. Mexiam com todos os fios de sua cabeleira, lisótrica, cortada ao estilo “príncipe valente”. Gaúcho de corpo, bigode, alma e rompante, não aceitava que se falasse mal ou se fizesse pilhéria com seus conterrâneos. Só ele tinha esse direito. Alguém que inadvertidamente começasse uma piada de gaúcho recebia em troca um olhar direto e repreensivo, logo transformado em sorriso concessivo.
Os prefeitos de Bagé eram suas personagens preferidas nos causos e anedotas. Contou ele que certo prefeito, chegando de avião em Bagé, foi indagado pelo repórter da rádio local:
– Como está o movimento no Aeroporto Salgado Filho?
– Tudo normal, com pequenos atrasos nos “arrivales” e nas “departures”.
Outro, ao assistir a elevação do segmento da ponte móvel sobre o rio Guaíba, exclamou extasiado ao cicerone: “como é linda a natureza, não é chê?”.
Contou o caso daquele que, experimentou – com pompa de gente chique – melão com presunto, novidade na época, no café da manhã do hotel onde se hospedara em Porto Alegre. Tendo que receber em Bagé nas primeiras horas do dia o Governador do Estado, decidiu oferecer um café da manhã e não fez por menos. Ordenou aos organizadores do convescote que providenciassem, dentre outras coisas, melão com presunto. Os funcionários disseram-lhe não ter achado na cidade nem melão nem presunto. Ele não perdeu o passo. “Sirva melancia com mortadela, para mostrar que somos criativos!”
Os conterrâneos também não lhe escapavam. Certa feita, almoçávamos na Churrascaria do Beira Rio, quando identificou um bageense pelo chapéu e pelo contorcionismo corporal usado para disfarçar o palitar de dentes.
O mais célebre dos episódios que vivi com ele foi numa viagem que fizemos ao Rio Grande do Sul. Eu, Carlos Alberto, supervisor dos programas florestais, e Nilson, do Departamento de Orçamento e Finanças. Pegamos um táxi rumo ao hotel. Collares ia sentado no banco dianteiro, ao lado do motorista, e nós, outros três, no banco traseiro. Bem na saída do Aeroporto de Porto Alegre, Collares resolveu falar sobre a estátua do gaúcho laçador, logo ali imponente. Dizia ele que o laçador deveria estar montado, pois fora o cavalo uma peça importante nas batalhas de sustentação das fronteiras do sul e no desenvolvimento do Estado. Entusiasmado, discorria didaticamente sobre a vulnerabilidade e a “elasticidade” das fronteiras, durante as refregas. Segundo ele, o cavalo fora fundamental no ganho e no estabelecimento das atuais fronteiras. Depois falou sobre a importância do cavalo na agricultura, no trato do solo, no transporte, na pecuária, na assistência social, enfim, no desenvolvimento do Estado. Foi quando Carlos Alberto, com sua voz de barítono concentrado resolveu questionar:
– Ô Collares, não seria mais justo colocar a estátua de um cavalo no lugar daquele gaúcho?
Riso geral, até do motorista. Collares gira bravamente sua cabeça para trás, sacudindo todos os cabelos. Fita raivosamente Carlos Alberto, por alguns segundos. Recolhe sua cabeça e nada diz. O riso mal contido permanecia. No desembarque, às portas do Hotel, dirigiu-se a Carlos Alberto, agora simpaticamente:
– Estás me devendo essa, parceiro!
Collares embarcou precocemente e às pressas na canoa da eternidade. Sua ausência causa-nos tristeza, mas, sua lembrança há sempre de nos colocar um sorriso na face.
*Roberio Sulz é professor universitário; biólogo, biomédico (B.Sc.) pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. [email protected]