Choque cultural

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Beirava dois meses que chegara a Três Corações/MG para morar com meu irmão Dimas. Com onze anos recém-completados, levava na bagagem cultura restrita às coisas do lugar onde nasci, Helvécia, vila baiana, com dois mil habitantes aproximadamente, na época. Sem energia elétrica, sem jornal, nem TV, tampouco autofalantes. Raros aparelhos de rádio alimentados por bateria, numa e noutra casa, ligados com tempo marcado para se ouvir o Repórter Esso, a novela O Direito de Nascer e músicas matinais aos domingos, na porta da pensão de seu João Rafael. Helvécia, local manso, cujo silêncio só não era absoluto por conta do constante mavioso gorjeio dos sanhaços, sabiás, corrupiões, bem-te-vis, canários, curiós, rolinhas e outras aves a habitar os frutíferos quintais domésticos e coqueiros da Estação. Os decibéis aumentavam com o gracioso apito e o arfar das marias-fumaças da Estrada de Ferro Bahia e Minas.
Com esse perfil, acostumado a pouca zoada, tudo na nova cidade me ocorria como novidade e barulho. Não me esqueço do primeiro banho quente de chuveiro elétrico, do até então nunca saboreado quibe feito por Edir, minha cunhada de ascendência árabe, da água filtrada, do sapato calçado e camisa vestida durante o dia inteiro etc. Assim sendo, eram frequentes minhas trapalhadas nos diálogos e compreensão dos costumes locais.
Finais de semana, à noite, o vizinho próximo costumava jogar baralho com convidados no alpendre de sua casa, aberto e inteiramente visível e audível da varandinha lá de casa. Para mim, o que ali ocorria não parecia algo amigável. Para os padrões helvecianos, tratava-se de uma discussão no limite da agressão, sendo um tal de “turco” o mais xingado em voz alta. Ouvia-se com frequência gritos: “Turco, ladrão dos meus pontos!” “Turco, lambe essa, ladrão!” E por aí se seguiam os xingamentos e desafios. Mais tarde, aprenderia tratar-se do jogo de TRUCO, conduzido com gritarias tidas como normais.
Esse mesmo vizinho tocava, como proprietário, uma moedora de milho. Para minha síntese, uma fábrica de fubá. Tornei-me amigo de Geraldo, seu filho dois anos mais velho que eu. Costumávamos compartilhar a caminhada de ida e volta até o colégio, no centro da cidade. À tarde, brincávamos, muitas vezes, a jogar bolinha de vidro (de gude, segundo ele).
Certo dia, voltando da escola, tentei combinar jogo para a tarde. Ele alegou impossibilidade, pois na fábrica de seu pai “a canjiqueira zangou” e precisava de ajuda para fazer a canjiqueira trabalhar.
– E o que fazem você e seu pai com a canjiqueira para ela voltar a trabalhar? Perguntei já boquiaberto.
– Não sei direito. Meu pai dá uns apertos com alicate aqui e ali, bate com martelo e a liga na eletricidade.
– Que horror! E ela não grita, chora, pede socorro com esse sofrimento todo? Lá na minha terra não se pode fazer isso com as pessoas, muito menos para obrigá-las a trabalhar! Observei, admitindo ser canjiqueira uma senhora encarregada de fazer canjica (aquele mingau de milho verde ralado, impropriamente chamado por aí de curau). De pronto, disse também surpreso ao saber que a fábrica de seu pai cozinhava canjica.
Geraldo riu e retrucou informando ser canjiqueira uma “máquina” para quebrar o milho em pequenos fragmentos. Ufa! Aliviou-me das dores que já compartilhava com a virtual cozinheira de canjica, massacrada e eletrocutada para voltar ao serviço. Aprendi também que “zangar”, naquela linguagem, significava enguiçar, sair de função.
Noutra oportunidade, brincávamos às margens do rio Verde, que passava ali pertinho, quando me ocorreu vontade de defecar. Aleguei que estava com “dor de obrar”, afastando-me e já procurando uma moita para me acocorar e efetuar o despacho.
Ao deixar a moita, Geraldo me perguntou se me havia aliviado da dor que ele não entendera de que mesmo. Dei-lhe as devidas explicações.
A maior novidade, contudo, ficou sendo mesmo o cinema. Lá em Helvécia, chamávamos de cinema um improvisado teatro de sombras, feito a partir de lençol branco pregado na janela aberta. À noite, sob a escuridão natural do lugar, colocávamos um lampião a iluminar o ambiente interno, enquanto do lado de fora ficavam os espectadores. Muitos sentados no chão. Recortávamos em papelão figuras de pessoas, animais, árvores etc. e montávamos um teatro de sombras. Enredo, vozes e diálogos eram dados às personagens pelos que manipulavam as sombras com varetinhas.
Por mais que minha imaginação houvesse elaborado, inebriei-me ao dar conta de estar num cinema, de verdade. Numa sala com baita tela a exibir imagens (em preto e branco, a bem da verdade) dinâmicas, com impressionante realidade e ambiente sonorizado. Confesso que, nesse primeiro contato, me liguei mais ao fenômeno da exibição que ao conteúdo da projeção propriamente.
Na saída, meu irmão Nilo, quem me levara àquela matinê, encheu-me de perguntas sobre o conteúdo dos filmes exibidos. Eram dois ou três de curta duração, inclusive um capítulo de seriado. Pouco soube responder. Certamente sairia melhor se me indagasse sobre o ambiente, o cheiro, as luzes, as cores, os sons, a dinâmica das cenas etc.
*Roberio Sulz é biólogo e biomédico pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. E pensador por opção. [email protected]

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