Candidatos em debate II

278

“Eu não tenho nada a ver com isso”. Essa foi a frase proferida pelo candidato do PV, Eduardo Jorge, instado a comentar a diatribe entre o candidato Levy Fidelix e o jornalista Kennedy Alencar, da Rádio Jovem Pan. Ficou cravada na memória dos que assistiram ao debate entre os presidenciáveis promovido pelo arranjo midiático UOL-SBT-Jovem Pan. O episódio extraiu francas gargalhadas da até então silenciosa plateia. Na indagação ao candidato Levy Fidelix, o jornalista registrava, a título de prolegômeno, o possível desserviço à democracia por parte dos partidos chamados nanicos que sobrevivem à custa de verbas do Fundo Partidário e se prestam mais como legendas de aluguel que agremiação de política definida. Naquele caso, fundamentava-se o inquiridor no fato de o candidato do PRTB – Partido Renovador Trabalhista Brasileiro – estar concorrendo pela décima vez em eleições majoritárias, seguro de mais um improvável sucesso. Ou seja: participando sempre só para constar ou figurar na mídia. E para agravar os efeitos dessa figuração, partidos como o PRTB e outros de mesma dimensão fariam – segundo ele – o papel de mercenários coadjuvantes a negociar adição de alguns segundos no horário político de quem mais os favorecesse. Além disso, atores a serviço desse tipo de agremiação estariam protagonizando, sob orientação, o papel de peões de frente nas agressivas provocações a adversários.

Levy Fidelix, por sua vez, não se amoitou. Contra-atacou, na pessoa do jornalista, a grande mídia, devolvendo-lhe com igual vigor as insinuações demeritórias e a pecha de instituição de aluguel. Segundo o candidato do PRTB, a mídia é quem é venal. Distorce fatos, dados e informações, antecipa injustas condenações, formata versões, divulga a seu gosto pesquisas de opinião não registradas, apenas protocolizadas, e o que bem lhe aprouver, tudo sob o viés em prol de quem melhor lhe remunerar.

Assim sendo, ao contrário do que afirmou Eduardo Jorge, todos nós temos muito a ver com isso. Tanto os partidos considerados nanicos como a mídia endinheirada abrigam-se farisaicamente sob o falso manto das liberdades democrática e de informação. Ambos se gabam de estar prestando valiosos serviços ao público, oferecendo alternativas racionais.

Na verdade, os pequenos partidos objetivam mesmo é perturbar a contenda eleitoral. No melhor dos hipotéticos nichos, funcionam como variável ruidosa no processo de escolha. Não disputam votos. Disputam patrões de ocasião. Esmeram-se para valorizar seu poder perturbador e amadurecer sua capacidade de achaque. Alguns buscam se vangloriar de ligação com seitas religiosas ou com duvidosos e precários movimentos sociais. Inflam-se sob o frágil invólucro da artificial alegoria, a fim de parecerem gigantes a justificar grandezas nos favores pleiteados. Blefam em altos e valentes brados como donos dos melhores trunfos. Usam a traição como arma. Sob a ameaça de trocar de alcova, leiloam-se em busca do melhor pagador. Em suma, entra ano, sai ano, passam eleições e esses nanicos não conseguem sair da escória política onde se meteram.  Parecem entulho de chiclete mastigado, colado no chão e de difícil varrição.

Por seu turno, a famigerada grande mídia, do ponto de vista ético e moral, não fica muito atrás dos partidecos de aluguel. Disfarça, mas não consegue esconder sua dependência dos governos e das classes economicamente dominantes. Dos donos dos negócios e das negociatas. Dos que jamais esqueceram que a propaganda é alma do negócio. E se depender de propaganda para assumir o comando geral do país, eles são mestres no ofício. Mesmo disfarçando, desbotando a cor de seus feitos, não escapam aos deslizes – um aqui, outro ali – de sua conivência clientelista.  São raros – mas, felizmente existem – os respeitáveis jornalistas que podem bancar sua independência de opinião.

Nesta época de campanha eleitoral, fica mais evidente a promíscua convivência entre os profissionais da comunicação e seus provedores. Os mais renomados, mas nem sempre competentes, acham-se aprisionados nas grandes organizações. Os de fama menor – quem sabe, também de menor talento – costumam pendurar-se nos candidatos, cada um a seu preço.

São verdadeiros proxenetas de resultados, como bem os descreve Wanderley Guilherme dos Santos, em artigo na revista “Carta Capital”, de 20/08/2014. Sabem identificar resultados de elevado interesse para seus clientes e forjar métodos e processos aparentemente eficazes para seu alcance. Colocam improváveis verdades na boca de duvidosas e obscuras “autoridades no assunto”, sábios de araque e comentaristas afamados pelo cachimbo que ostentam. São fajutos mercadores de ilusão e de ocasião.

*Roberio Sulz é professor universitário; biólogo, biomédico (B.Sc.) pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. [email protected]