Por Roberio Sulz*
2ª parte – Expressamos nosso desgosto com o temporal, para variar. Camilo, prestativo, puxou, desdobrou e ofereceu-me uma cadeira. Assentei-me a uma distância que me permitisse sentir suavemente o calor do fogão, para compensar a friagem do vento sul que permeava o local.
Mal me sentei e lá se foi a energia elétrica. O breu só não ficara completo por conta do braseiro e das eventuais labaredas vomitadas pela boca do fogão, colorindo o ambiente com flashes de luz alaranjada, às vezes complementados por relâmpagos que atravessavam a claraboia.
Cleôncio providenciara acesos dois lampiões a querosene no salão e um na área do bar. Visto que da camionete que parara na porta principal do Macambira saltara um casal já tropeçando no batente do estabelecimento, Cleôncio pegara e acendera o único lampião ainda apagado da cozinha para melhorar a iluminação do salão. Dona Detinha e Camilo, ao pé do fogo, puseram-se de plantão aguardando pedido de refeição. Enquanto isso, Camilo insistia para que eu falasse sobre a vida dos animais.
Esclareci-lhe que nem sempre sabia tudo que ele queria ouvir. Contudo, ele não cansava de repetir com ênfase o prazer e o orgulho de ser meu amigo, de minha visita naquela oportunidade e de ter recebido interessantes aulas sobre a vida, em nossos diálogos. Manifestava o desejo de um dia chegar a ser um doutor em biologia.
Tempos depois, eu lucubraria porque Camilo se interessava tanto pelos insetos coletivos, abelha, formiga, cupim, bem como pelos grandes animais que se organizavam em grupos familiares etc. Almejava viver numa família harmonizada. Em nosso último diálogo, por exemplo, discorri com detalhes sobre as abelhas. Parecia nada ter esquecido. Pelo contrário, colecionara perguntas na cachola, por exemplo, como se dava o desenvolvimento de nova rainha na colmeia quando a antiga morria; a informação transmitida entre as operárias sobre o local onde encontrar o néctar, passada como dança e desenho no interior da colmeia etc.
O casal recém chegado ao salão nada pedira da cozinha. Ficou na cerveja e tira-gostos à base de queijo, azeitonas, castanhas, amendoim torrado e picles da casa, arranjados em tigelinhas por Selma, já de volta no salão. Camilo e dona Detinha sentaram-se no rumo da boca do fogão, de modo que eu os podia ver sob o clarão do fogo refletido em seus rostos. Lindo quadro brilhoso e colorido de mãe e filho, registrei na memória.
Minha conversa com dona Detinha girava em torno de comidas. Falamos sobre a celebre panelada de mocotó com dobradinha e legumes, geralmente servida como alternativa à feijoada dos sábados, a trazer gente de longe para saboreá-la em atmosfera de festa. Ressaltamos a deliciosa moqueca de robalo, com leite de coco e azeite de dendê artesanais (nada de urucum, nem alho!). Por fim, mirando as carnes no fumeiro, comentamos sobre os torresmos e outros excelentes tira-gostos de carne defumada e do aipim cremoso, purê feito com aipim amarelo bem cozido e amassado com coalhada mais manteiga de garrafa, tempero verde e sutil toque de molho de pimenta.
Camilo, certamente desinteressado naquele tipo de conversa, acendeu sua lanterna de pilha e informou que iria descansar, prometendo voltar ao papo assim que a luz fosse restabelecida. Na sua ausência, indaguei a dona Detinha como andavam as relações dele com o Cleôncio.
- Nunca foram boas e têm piorado. Como o senhor sabe, Camilo é meu filho e enteado de Cleôncio desde os oito anos de idade. No primeiro ano em que vivemos juntos, ainda em Alagoas, com freguesia baseada em cortadores de cana e empregados de engenho, Cleôncio parecia não suportar o tipo desligado de Camilo. Xingava-o de abestado, desatento e até de retardado mental. Quando mandado a fazer algo, Camilo costumava-se distrair com outras coisas, esquecendo a demanda. Cleôncio perdia a paciência: ralhava, destratava-o como “vagabundo, imprestável, bom de morrer”. Em alguns casos, até lhe aplicava cascudos, surras de cinto e tapas na cabeça. Cheguei a arrumar mala para me separar, mas Cleôncio sempre soube conquistar freguesia e nosso negócio de restaurante e lanchonete não dava pra trás. Também imaginava: “quem há de me aceitar com um filho crescido adoentado do juízo?” Além disso, a freguesia em Alagoas era de gente rude do campo, cortadores de cana sem educação nem instrução que não se dava ao respeito nem a boas amizades. Quando aparecia no restaurante um engenheiro ou gente mais instruída, Camilo não desgrudava, interessado em saber das coisas, principalmente sobre animais e plantas. Pedia livros usados e publicações.
Comentava-se que por aqui circulavam pessoas bem instruídas, doutores, professores, tendo até boas escolas públicas. Pintavam esta região como reduto de desenvolvimento, correndo muito mais dinheiro que nos grotões dos canaviais. Decidimos vir, montamos o Macambira que tem dado certo. Deparamos com fregueses que vão além daquela comida do dia-a-dia. Preferem filé mignon alto, massas, temperos e molhos especiais, feijoada, moqueca, carne de sol macia e de dois pelos, costela bovina com aipim ou no cozido com verduras. No embalo dessas demandas, inventei muitos pratos que terminaram enriquecendo o cardápio e fazendo nossa diferença para uma seleta freguesia. Continua na próxima semana.
Nota: qualquer semelhança com pessoas ou fatos da vida real é mera coincidência.
*Roberio Sulz é biólogo, biomédico e professor com licenciatura plena em Ciências biológicas (UnB), MSc. (University of Wisconsin, USA). Membro Correspondente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador/BA. [email protected]