“O bom da vida é cavalo que vê capim e come”, Guimarães Rosa. Venia insto para discordar. Quando criança via tudo como Riobaldo, achava que deveria ser como o cavalo de Guimarães Rosa, os primatas, (australopithecus) nos primórdios, eram catadores, não tinham inventado a agricultura ainda, nômades contumazes. Como chovesse em demasia em Itanhem, entendia que deveria chover somente pela noite e durante o dia raiasse o sol, com todo o seu vigor. Portanto, o alimento deveria ser encontrado como o “bom da vida do cavalo” ou de Zé de Teté que não gostava de trabalhar e dizia para meu pai: “morro de fome, mas num trabaio”. Sonhava com ingredientes alimentares sem necessidades de cultivados. Utopia pura e sonho de criança. Ariano Suassuna dizia que o poeta não tem compromisso com a verdade. Penso que a asserção pode muito bem ser estendida aos escritores, que no seu entendimento, por serem criadores de histórias, por isso, são tidos como mentirosos. Churchill compelido a considerar uma pessoa verdadeiramente infeliz, afirmou que é aquela que está sozinha numa cabana num dia chuvoso e não sabe ler. Concordo! Portanto, não posso considerar que “bem da vida é cavalo” somente por ver capim (farto e natural) e comer. Prefiro o hipotético livro do inglês. Ao manusear um livro de Luiz Fernando Veríssimo deparei com o seguinte texto, que comprova a teoria de Suassuna, concernente ao imaginário do escritor. Fala ele de uma terra de monstros, citando uma escritora chamada Diane Ackerman, num livro intitulado A história Natural dos Sentidos. Sabemos que somos possuidores de cinco sentidos, todos localizados na cabeça, sendo que o tato é o único que não se contenta em permanecer estático, pois está em todas as partes do corpo. Diane especula sobre o que um visitante de outra galáxia pensaria do que comemos por estas plagas. E prossegue cogitando. Inicialmente pergunta o que o extraterrestre acharia se resolvesse oferecer um jantar de confraternização na nave-mãe para representantes dos demais povos da Terra, certamente encontraria muita dificuldade em organizar o menu e mais ainda em conter a ânsia de vômito. Uma vez que por ser um ente perfeito, que se alimenta somente de luz líquida, como os demais hipotéticos alienígenas, ele não entenderia como os alemães conseguem comer repolho azedo com tanta alegria, por que os americanos chamam o pepino estragado de pickles e comem com tudo, ou os franceses que esperam o peixe apodrecer antes de degustá-lo, bem como os japoneses que sequer esperam o peixe morrer, pois o comem cru. E qual a causa de alguns se entusiasmarem com um fungo chamado de champignon e entram em êxtase com outro produto igual conhecido por trufa, colhido depois de encontrado embaixo da terra por porcos. E continua na sua especulação. Porém o que realmente faria o alienígena extraterrestre procurar o banheiro da nave seria descobrir que os terrestres espremem um líquido branco e gorduroso das glândulas mamárias de um estranho animal dotado de quatro patas e galhas na cabeça chamado “vaca” e o bebem. E mais, do mencionado líquido outros produtos são produzidos e consumidos. Ao regressar do banheiro, o solícito anfitrião provavelmente se deparasse com um italiano destrinchando um passarinho com os dentes e fosse obrigado a sair correndo mais uma vez. A surpresa ficaria reservada para o pão que o visitante não acharia nada de mais, pois sendo um alimento mais simples e são do homem. No entanto ouviria o alemão contar que o pão pumpernickel tem este nome porque pumper quer dizer “pum” e Nickel quer dizer diabo, e por ser o pão tão duro até mesmo o diabo solta puns ao tentar comê-lo. Tudo isso aliado ao queijo bolorento e fedorento que o francês trouxe para comer com o pão levaria o extraterreno a tomar uma decisão extrema e súbita. Expulsar todo mundo da nave e voltar voando para a sua galáxia translúcida, longe desta Terra de monstros. Imagino que o fato deveria ter ocorrido, pela descrição, do lado dos ocidentais, pois se tivesse visitado o oriente, o horror seria bem mais explícito, onde insetos são ingeridos vivos, crus, cobras, cachorros. Se tivesse visitado algum país oriental, a sua ânsia de vômito o teria levado ao hospital por bom tempo. Pela história composta pela Diane Ackerman fica provado que Ariano Suassuna tem razão ao isentar poetas de se aterem a fatos verdadeiros, em virtude de suas criatividades e invencionices. Não se pode duvidar da capacidade criativa dos escritores. São eles que nos legam fatos verdadeiros ou imaginados. Além de registrarem acontecimentos pretéritos que servirão de subsídios aos prósperos. Para isso servem os livros e todos aqueles que lhes deram vidas e continuarão a mantê-las vivas para manutenção da memória do passado. Feliz é aquele que tem a divícia do saber para consultar um bom livro. Teixeira de Freitas, 20 de agosto de 2014. *Ary Moreira Lisboa é advogado e escritor.


