Por Robério Sulz*
Durante um tempo em Brasília (tempo propositadamente não identificado) figurava um deputado que se tornou famoso pelas festas oferecidas em sua mansão no Lago Sul. Solteirão, endinheirado, com todos os cacoetes de playboy internacional, dispensou o apartamento funcional que lhe fora reservado. Preferiu alugar uma ampla vivenda, com belos jardins, piscina, churrasqueira e outros confortos. Trouxe até uma experiente governanta de sua terra natal para gerenciar a criadagem e os serviços de buffet frequentemente demandados.
Para evitar rótulos e frequentadores oferecidos, os eventos variavam em estilo e precedia de rigorosa seleção dos convidados. Por lá se tinham, desde jantares de família para colegas parlamentares e gente da exibida aristocracia candanga, até festas menos inocentes para solteiros descomprometidos com os rigores sociais, recheadas de jovens e animadas cidadãs. As festas mundanas eram organizadas por seu filho Teddy, garotão na faixa dos vinte anos, que, embora residindo e estudando direito em suas origens, era frequente em Brasília, fosse nos feriados alongados ou nas férias acadêmicas.
Teddy puxara ao pai no gosto por promover folias. Mandara transformar uma das dependências da casa em salão de festas, com luz negra, globo refletor giratório, estroboscópio, máquina de fumaça e outros aparelhos do gênero. O sistema de som era de última geração, com distribuição uniforme em todo o ambiente. Além disso, climatizado e decorado com invejável custo. O pessoal nas festas de Teddy nem sempre era a mesma galera. Primava pela variação dos convivas. Preferia gente diferente em cada evento com o intuito de fazer novas amizades e não estragar as surpresas, características e sempre reservadas para o decorrer ou final do agito.
Foi numa dessas festas que Baixinho terminou incluído por força de sua amizade com um dos funcionários do gabinete do deputado, parente distante de Teddy. Não se imprimia nem se divulgava convite. Era tudo feito na base da conversa pessoal, evitando alardes e vazamentos. Não faltavam recomendações – específicas para cada tipo de evento. Na festa para a qual Baixinho fora convidado, todos deveriam trajar calça preta, camisas sociais de mangas longas brancas, sem gravata, sapatos pretos sem cadarço, não usar perfume nem desodorante perfumado e não se falarem. As bebidas seriam servidas por dois garçons num barzinho móvel e escolhidas por gestos manuais.
Vigorava no Brasil o regime militar, costumeiro em armar arapucas para aprisionar suspeitos esquerdistas. Baixinho não ignorava, mas não temia essa possiblidade, visto nunca ter tido envolvimento político e ser o anfitrião deputado aliado ao regime. Contudo, as exigências para ingresso na festa eram bastante inusitadas.
Acompanhado de seu amigo – funcionário do deputado – chegou à porta da mansão às dez da noite. Horário rigorosamente combinado e exigido. Nesse meio tempo também chegaram outros e outras provavelmente todos os demais convidados. Próximo de trinta pessoas. Não carecia esperar. Para não chamar à atenção da polícia ou de estranhos bisbilhoteiros, os veículos mal paravam – não estacionavam – para desembarque dos passageiros. Teddy mantinha uma boa frota de veículos e motoristas para conduzir os convidados de volta as suas casas, ao final da festa.
Já no interior da casa, cada um a seu tempo, num compartimento tipo camarim, recebeu na cabeça um capuz branco, longo até além dos ombros, luvas pretas de alcance até o cotovelo e desodorante de perfume igual a todos. Baixinho logo entendeu que o propósito era dificultar distinção e identificação das pessoas.
Assim uniformizados, chegaram ao salão de festas, sob penumbra e música em alto volume. O único cidadão em traje diferente e sob foco luminoso especial era Teddy. Recebia cada convidado com afetuoso cumprimento. A uniformização dos trajes mais a iluminação em penumbra não permitia sequer distinguir a cor, nem o sexo do convidado. Teddy, para minimizar dúvidas, informou a todos que ali estavam quinze homens e quinze mulheres.
A música eletrônica, embora moderna e agitada, estimulava movimentos de dança. De início, cada um singularmente.
O barzinho móvel repleto de drinques, uísque, vodca, vinho, champanhe e salgadinhos destacava-se sob um estreito foco luminoso. Todos se faziam servidos sem competição. Sob descontração etílica, já se viam duplas trocando carícias e beijos no salão.
Ante esse quadro, Baixinho terminou entendendo que a uniformização dos presentes propositadamente possibilitaria relacionamentos sem distinção de gênero, cor, nem preconceito de terceiros.
De início, hétero convicto e desinteressado nessa aventura, permitiu-se ficar de molho num canto exercitando critérios antes assegurar-se sobre o gênero de quem lhe viesse a interessar. Observava o formato do corpo, quadris mais alargados, seios, movimentos de braços e pernas etc.
Sorveu generosas doses de uísque até tornar menos rigorosos seus critérios. Partiu para o salão. Aproximou-se de alguém de corpo mais volumoso que não refugou a abordagem. Esfregaram-se e beijaram-se por uma boa fração de hora, até que veio a ordem de Teddy para que todos ficassem descalços, vestindo apenas suas peças íntimas. Cabides numerados foram distribuídos para garantir a identificação do dono da roupa e do calçado.
Quando Baixinho examinou melhor o baixo ventre de sua companhia, saiu para vomitar no banheiro. Não se cansava de cuspir e enxaguar a boca. Recolheu-se novamente ao um canto, justificando o mal estar no excesso de bebida. Por sorte, faltava menos de meia hora para as quatro da madrugada, hora imposta pelo anfitrião para o término da festa.
De volta a seu apartamento, Baixinho caiu em sono profundo. Ainda assim, declara ter gostado da festa pela criatividade de seu anfitrião organizador.
(*) Roberio Sulz é biólogo e biomédico pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. Pensador por opção. [email protected]