Alecrim

437

Por Roberio Sulz*

Pela metade do século passado em Teófilo Otoni, um grupo de rapazes chamava a atenção dos passantes por seus jeitos efeminados de falar, vestir e andar. Embora sem exageros, achavam-se sempre maquiados com pó compacto no rosto, cores nos lábios e realce nas sobrancelhas e cílios, além de cabelos alisados e empastados de brilhantina.

Liderava o grupo Alecrim, rapaz alto, esguio, mulato e de olhos verdes. Sempre em roupas da moda, muitas podiam servir a ambos os gêneros. Gozava de elevado prestígio junto às madames da aristocracia local, mormente as frequentadoras de seu salão de beleza e massagem na Rua Nova.

Pacíficos, evitavam confrontos, mas, reagiam vigorosamente quando se sentiam agredidos pelo “bulling” dos desafetos Bigão, Jussiê, Vesgo, Fardo e outros. Estes não se limitavam a piadinhas, chegavam à ousadia de incômodos e desmoralizantes beliscões nas nádegas, em público.

Nos fins de semana, o grupo de Alecrim crescia com a adesão de outros do mesmo gênero. Faziam trottoir na Praça Tiradentes, circulando em idas e vindas o trajeto entre o Cine Vitória e o Cine Império. Fingiam desdém aos que lhes faziam gracinhas ou endereçavam fiu-fiu.

A cidade não oferecia muitos nichos de lazer. Os cines Vitória e Império reinavam absolutos. O Metrópole veio depois, mas, deslocado para o início da Rua Francisco Sá, não conseguira roubar o prestígio dos tradicionais.

Nessa época um evento mexeu com os teófilo-otonenses. Na Praça Tiradentes, o Prefeito Petrônio de Souza agendou a inauguração de uma fonte luminosa que vinha sendo construída há meses. Aproveitando parte da madeira usada na própria obra, fez erguer, com 60cm de altura, um amplo e provisório tablado-palco, para ambientar as comemorações: falas protocolares, concerto da orquestra sinfônica vinda de Belo Horizonte e um inédito espetáculo de dança artística.

Para dar um toque especial à festa, às oito horas da noite, todas as lâmpadas da iluminação pública da praça, bem como das edificações próximas, ficariam desligadas por quinze minutos. O apagão serviria para ressaltar o esplendor dos jatos d’água coloridos e, sob o dinamismo de suas luzes, dar brilho especial ao espetáculo “Dança Ritual do Fogo”, a ser apresentado pelo grupo artístico local “Nexos do Alecrim”, criado especialmente para esse evento, por convite formal da Prefeitura. Coube a Alecrim e seus parceiros a responsabilidade total da apresentação. Armaram um belíssimo cenário, delimitando, no palco, o espaço de dança com quatro tachos sobre pilares, para liberar línguas de fogo com a queima de estopa embebida em álcool, a lembrar piras romanas. A coreografia ensaiada à exaustão no salão do Automóvel Clube, o figurino e a maquiagem de cada um dos dançarinos meticulosamente estudados e desenhados para a apresentação.

Insistentes chamadas através do serviço de autofalantes de Lourival Pechir e da Rádio Teófilo Otoni, conseguiram levar um ror de pessoas à praça, mesmo antes do sol se por.

Na espera da solenidade, crianças corriam em algazarra, adultos reencontravam conterrâneos pouco vistos em público para atualizar e diversificar o papo. Cachorros desentendiam-se aos rosnados e latidos. Baleiros, vendedores de pipoca, quebra-queixo, algodão doce, refresco de groselha, cata-vento de papel. Até Aristeu estava lá com seu tabuleiro pendurado no pescoço a vender pastéis. Também o infalível Dentinho com sua manjada piruliteira circular. No bar do Ferraretto fila para comprar picolé. Enfim, tanta gente que uns se esbarravam nos outros, mesmo antes do apagão programado.

Alecrim e seu grupo buscaram refúgio contra os esbarrões, junto à margem do espelho d’água da fonte, num canto ainda isolado por tijolos, brita e entulhos da obra. Cobertos por capas pretas, aguardavam o momento de despi-las na hora do show. Ansiosos, mas, tudo acertado para não perderem a oportunidade de fazer surpresa e sucesso.

Deixe estar que Bigão também arrebanhava sua gente, focando sentido na turma de Alecrim. Invejando todo aquele luxo e prestígio dos desafetos, Bigão e amigos resolveram melar a apresentação. Aproveitariam a escuridão programada para lançar nos dançarinos graxa mais fezes de porco e galinha diluídas.

Faltando meia hora, no palanque, o prefeito concedeu a palavra às autoridades presentes. Às oito em ponto, encerrou as falas com agradecimentos gerais aos que permitiram a realização daquela obra.

As luzes públicas foram desligadas na hora prevista, mas, sem o acionamento sincrônico imediato da fonte. Com isso, deu-se um apagão absoluto, ensejando anonimato à ação da turma de Bigão. Contudo, os quatro meladores, sem saber dos obstáculos, tropeçaram nos tijolos e entulhos, mergulhando no espelho d’água. Naquele instante, a fonte foi ligada. Um defeito na proteção contra choque elétrico, fez os quatro comparsas de Bigão imersos gemerem e se contorcerem. Salvou-os o desligamento imediato da fonte. Não sem os deixar inertes e encolhidos.

Religada, a fonte iluminou todo o ambiente. A orquestra executou o hino de Minas Gerais, enquanto o mestre de cerimônias introduzia e apresentava, nome a nome, sob efusivos aplausos, os componentes do “Nexos do Alecrim”.

Removida a capa, cada dançarino revelou-se caprichosamente vestido com pantalona de cintura alta contínua à blusa de cetim brilhante em dégradé vermelha a partir dos pés chegando ao laranja na cintura, de onde esmaecia até o amarelo nos ombros e no capuz a cobrir a cabeça. Uma flama perfeita!

Acesas as piras no palco, o grupo exibiu a “Dança Ritual do Fogo” sob emocionante arranjo musical. Surpreendente foi o dinamismo das chamas que cada dançarino fazia lembrar ao dançar e desfraldar um grande lenço de tecido esvoaçante igualmente no dégradé entre o vermelho e o amarelo.

Impecáveis, orquestra e dançarinos foram demoradamente ovacionados pelos presentes, com pedidos de bis.

*Roberio Sulz é biólogo e biomédico pela UnB; M.Sc. pela Universidade de Wisconsin, EEUU. Pensador por opção. [email protected]