A vida de cachorro

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Esta é uma história real, vivida no dia 07 de setembro, dia da Independência, omitindo apenas os nomes dos protagonistas, menos da cachorra (ou seria com X, com a palavra João Carlos), cujo verdadeiro nome é NINA. Nina é uma basset vira-lata com status de madame. Todos dizem que provoca ciúmes pela maneira como é tratada. Tem médico veterinário exclusivo, com hora marcada para consultas, vacina de todos os tipos, alimentação balanceada, e, apesar de seus mais de três anos, ainda continua virgem por imposição de seus patrões, que contrariando a natureza e o instinto animal, não permitem que ela procrie para não comprometer sua beleza estética corporal. No último dia 7 de setembro, todos tinham saído, uns para Alcobaça, outros para Belo Horizonte, MG, para acompanharem a vitória do Vasco sobre o América Mineiro, pelo placar de 3 a 2. A dona da casa, por ser professora, teve que levar seus alunos para o cívico desfile patriótico, somente regressando ao lar após o final de suas obrigações professorais, depois de 14h30. Em casa somente o dono da casa que, por não ter obrigação cívica alguma deleitava-se com a leitura de um livro de Rodrigo Constantino, intitulado “Esquerda Caviar”, ao som dos Quartetos para Piano e Orquestra de Beethoven, regido por Daniel Barenboin e uma dose de  Hennesy. A patroa, ao chegar, sua primeira atitude foi procurar saber onde se encontrava Nina. Teve a mesma resposta que Caim deu ao criador: “Não sei, pois não sou seu guarda”. Imediatamente ela começou a vasculhar todos os recantos da casa, clamando pelo nome da cadela verificando onde se encontrava. Angustiada a encontrou dormindo dentro do carro. Depois de a liberar preocupou-se em fornecer-lhe seu alimento predileto, conduzindo-a para fazer o seu xixi (chi) na rua, o que é politicamente incorreto,  exemplo da má educação, ainda que para uma cachorra ( X), tão preciosa e respeitada. Marina Silva, a futura Presidente (a) do Brasil, depois do dia 05 de outubro, apesar de protetora dos animais e amante da ecologia, dificilmente aprovaria tal procedimento. Afinal a vida de cachorro (x) não é tão difícil assim. Determinado Ministro de Collor disse que “cachorro também é gente”, ao ser flagrado conduzindo um em carro oficial. Noticia-se que o ramo que mais cresce no país é destinado aos alimentos para cachorros, com seus tratamentos, clínicas e hospitais especializados, para toda a espécie de caninos, inclusive com festas e bolos para aniversários deles. É ou não é motivo de fazer inveja para muitos seres humanos, inclusive aqueles que patrocinam todas as despesas, convescotes, regados aos mais variados acepipes caninos? Sem levar em consideração os brinquedos caros, importados. Com tratamento vip assim recebido não se pode considerar que vida de cachorro (X) é desprezível, motivo de crítica. O cão é considerado o amigo mais fiel do homem. Muitas são as histórias em que eles são protagonistas. Argos, o fiel cão de Ulisses, quando do seu regresso, à sua Ítaca, depois de 20 anos de ausência, de tanta alegria ao reconhecê-lo, teve um fulminante ataque cardíaco e faleceu. Não se pode negar a função de guardião que eles exercem. O cão São Bernardo salva vidas de pessoas perdidas nas montanhas em áreas cobertas por neve e gelo. Os cães policiais ajudam a encontrar drogas e outros artefatos em aeroportos, outros, pessoas perdidas em escombros e desmoronamentos. Há aqueles que cuidam das ovelhas. Todo vaqueiro, sertanejo ou não, está sempre acompanhado pelo seu fiel escudeiro ao lado do cavalo. Jânio Quadros ao ser consultado o que desejaria ser se não fosse Jânio, respondeu: “O cachorro de Jânio”. É realmente um exemplar companheiro. E Nina, para que serve? Apenas para causar preocupação por ocasião de seu ciclo menstrual (cio), a hora do xixi, da vacina, da comida e do banho semestral, cuidadosamente planejado. Nada mais. Bovinamente aguardará outra data cívica, (será o 15 de novembro?) para voltar a agasalhar-se, sorrateiramente, no interior do carro, para que os menos avisados se regalem com a sua ausência, até que seja novamente encontrada para ser alimentada e conduzida ao meio da rua para o seu xixi. Como acima declarado, a professora ao chagar em casa, primeiro teve o cuidado e carinho de saber onde estava a cadela e o seu pseudo e temporário desaparecimento. Quanto ao leitor de Rodrigo e ouvinte de Beethoven, ficou sem almoçar, pois sequer foi consultado se já havia feito tal refeição, pois como a casa estava vazia, sem ninguém mais além da intrépida Nina, não teve a ajuda de qualquer. Aqueles que clamam pela vida ingrata de cachorro não conhecem a vida que levam as NINAS. Enquanto a patroa a alimentava, o patrão ficou a ver navios, tal qual a cigarra de Esopo, que cantava. “Amar a humanidade é fácil; difícil é amar o próximo”. (Nelson Rodrigues).

Teixeira de Freitas, 07 de setembro de 2014. *Ary Moreira Lisboa é advogado e escritor.