Ao voltar da Itália país dos doutores, dos fatos (traje, roupa fina), das gravatas, dos da esquerdas e da direita, estou um pouco cansado de ver as culpas sempre atiradas para o vizinho do lado. Confesso ao Deus-povo-todo-poderoso, criador da sociedade em que habito: eu pequei, eu peco, eu vou continuar a pecar. E confesso na esperança de que todos os outros possam ser melhores do que eu. Não tendo conseguido distinguir-me entre seres da mesma espécie, digo a mim próprio que a explicação está no pragmatismo inerente ao avanço da idade e na certeza de que tenho de que não serei capaz de mudar o mundo. Precisaria, aliás, de milhares de palavras para explicar as razões porque me sinto igual ao comum dos mortais. Hesito, nesta confissão da minha fragilidade, porque tenho como certa a impossibilidade de demonstrar a mim próprio, e ao mundo, que a simples confissão me pode transformar em alguém melhor. A utopia de um mundo verdadeiramente solidário é isso mesmo, uma utopia. É atrás do dinheiro que andamos todos. Atrás e nunca na frente. Vivemos rendidos. E afirmo eu com toda clareza que também me sinto vencido. Procuro manter o status quo, mesmo sabendo que meu nível de vida não me garante um segundo de protagonismo na História da Humanidade. O dinheiro que rouba o tempo, quando deveria servir para comprar, permite apenas adquirir um falso respeito. Alimenta egos que jamais estarão satisfeitos. Não vivo nenhuma angústia especial, sou apenas alguém a revelar suas fraquezas na esperança de que todos encontrem espaço para perceber que, quase nunca, o mal do mundo são os outros. Eu adoro a vida, meus filhos, meus livros, meus pais que se foram levando alguns irmãos, os que ficaram. Gosto dos poucos amigos que tenho. Entre todas as pessoas de quem gosto, não conheço uma só que seja mais culpada do que eu por estarmos onde estamos. Portanto, não alinho na tese que responsabiliza em exclusivo os políticos que elegemos pelo mal que vivemos. Sendo nós, o que somos, evitamos ser mais solidários e revelamos com isso a nossa incapacidade de ceder, até nas coisas mínimas para construir uma sociedade mais justa. O que falta ao Brasil para ser um país com futuro e justiça, não é dinheiro, este temos em toda parte, pois a política, como ensinou Aristóteles começa em cada um de nós. Nosso mal é a corrupção endêmica. Maldito seja aquele que inventou o dinheiro que traz o poder, o que levou Millor Fernandes a cunha: “Dinheiro não é tudo, mas é 100%”. Acabo de chegar da Europa. Por ser ignorante, não pertencer ao grupo de Delfim Netto, Miriam Leitão, Pedro Malan e Mantega, entre outros luminares, não senti, não percebi, não vi reflexo algum da tão falada e badaladíssima crise. Ao contrário, taxi Mercedes Benz, ruas limpíssimas repletas de pessoas comprando, estradas espetaculares, ferrovias, fazendo turismo interno, viajando. A crise, ao meu sentir, é existencial, funcional, proposital pelos banqueiros gananciosos e argentários. Não se tem notícia de um esmoler, um mendigo, mesmo na porta das igrejas, costume secular em todo mundo. Filas as mais incríveis em todos os lugares, com gente de todas as raças, transformando tudo numa verdadeira Babel, ouvida pelos mais diversos e estranhos sons das línguas. Onde a crise? Em razão de sociedade milenar, tudo é tombado, é toda coberta de árvores que não podem ser dizimadas como no Brasil. Lá tem lei que é cumprida e executada com rigor. Não há protecionismo e muito menos jeitinho. Qualquer área com mais de 1.000m² é um latifúndio. Todo espaço livre é utilizado para plantar toda espécie: trigo, arroz, pêra, maçã, pêssego e flores muitas flores, rosas, sobretudo. O turismo interno é por demais intenso, como disse acima. Por sofrer de agarafobia, não me ambientava com o volume humano, que tornava impossível a apreciação do ambiente, da paisagem, dos monumentos, enfim de tudo. A prova da exuberância que afasta a pseuda crise financeira são as imensas filas em restaurantes, lojas, igrejas, em toda parte, sendo que em algumas tem que se marcar a hora e a data para entrar, inclusive com número limitado de visitantes,e tempo de visita, como aconteceu em Coimbra, no Vaticano e outros lugares que não me recordo. Regressei ao Brasil bastante entristecido, lembrando dos tristes versos de Camões ao regressar a Portugal, pobre, depois de algum tempo em Goa: “Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho\Destemperada e a voz enrouquecida\E não do canto, mas de ver que venho\ Cantar a gente surda e endurecida.\O favor com mais se acende o engenho\Não no dá a pátria, não, que está metida\No gosto da cobiça e na rudeza\Duma austera, apagada e vil tristeza”L.X,145. Sem termos de comparação. (Por opção pessoal não adoto o novo acordo ortográfico). Teixeira de Freitas, 8 de junho de 2013. *Ary Moreira Lisboa é advogado e escritor.


