Por Henrique Matthiesen*
Vivemos tempos em que a ignorância deixou de ser um estado provisório para tornar-se um projeto cultural. A era contemporânea, embriagada por telas luminosas e algoritmos que massageiam o ego, produziu uma nova forma de tirania: a tirania do achismo. Trata-se de um regime difuso, porém absoluto, no qual qualquer opinião, por mais rasa ou delirante, busca legitimidade apenas porque alguém “sentiu que é assim”. A razão foi abandonada, a reflexão esvaziada, e o conhecimento, antes patrimônio precioso da humanidade, passou a ser visto como incômodo.
Nunca se falou tanto e se pensou tão pouco. Nunca houve tanto acesso à informação e tão escassa capacidade de interpretação. O século XXI demonstra que dados não formam mentes e que tecnologia, sem profundidade, não emancipa, apenas atrofia. Somos herdeiros de uma tradição intelectual que produziu Sócrates, Descartes, Kant e Hannah Arendt, mas escolhemos seguir influenciadores que confundem convicção com pensamento e frases de efeito com reflexão.
A tirania do achismo floresceu onde a leitura definhou. A geração que despreza livros tornou-se especialista em tudo. Debatem política sem conhecer história, opinam sobre ciência sem compreender método e discutem ética sem jamais terem exercitado reflexão moral. Confundem autenticidade com sabedoria e coragem com insolência. O vazio transformou-se em estética, e a futilidade, em virtude socialmente celebrada.
As redes sociais consolidaram esse cenário. Converteram-se em arenas onde o grito vale mais que o argumento e a arrogância supera a dúvida. A lógica algorítmica premia o excesso, não a ponderação. Assim, a ignorância organizada ganhou palco, audiência e aplausos. A figura do ignorante confiante, que nada sabe, mas tudo afirma, tornou-se modelo de sucesso.
Nesse ambiente, a erudição passou a incomodar. Quem lê irrita, quem pensa provoca rejeição, quem estuda parece deslocado. Valoriza-se a velocidade, não a maturação; o instantâneo, não a elaboração. A sociedade apressada e intelectualmente subnutrida prefere slogans a conceitos, memes a argumentos. Com isso, a própria noção de verdade dissolve-se.
O achismo é tirânico porque é soberbo. Não dialoga, impõe. Não investiga, sentencia. É o triunfo do ego sobre a inteligência. A tecnologia concedeu a milhões a ilusão de autoridade intelectual, mesmo sem lastro algum. A ignorância, antes vergonha, converteu-se em ornamento.
Vivemos o paradoxo cruel de uma era saturada de informação e deserta de sabedoria. Sem leitura, não há memória; sem memória, não há pensamento; sem pensamento, não há civilização. A tirania do achismo não é apenas um fenômeno cultural, mas uma ameaça civilizatória. Resistir a ela exige restaurar o valor do estudo, da dúvida e do silêncio fecundo. Pensar, hoje, tornou-se um ato de resistência em um mundo que se contenta em apenas achar.
Se o século XXI corre o risco de ser uma caricatura da inteligência humana, isso não se deve à falta de recursos, mas à recusa do esforço que o pensamento exige.
*Henrique Matthiesen é Formado em Direito e Pós-graduado em Sociologia


