A Filosofia do Charlatão em Lima Barreto

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Por Henrique Matthiesen*

A obra O homem que sabia javanês é, antes de tudo, um espelho. Um espelho polido pela ironia e pela sabedoria de Lima Barreto, capaz de refletir não apenas a sociedade de sua época, mas também a condição humana em qualquer tempo. A literatura, como uma das artes mais sublimes, permite-nos atravessar mundos e compreender aquilo que o cotidiano, por vezes, encobre: as máscaras que usamos, as aparências que sustentamos e os enganos que toleramos. Nesse conto, o escritor expõe não apenas o comportamento de um indivíduo oportunista, mas a própria estrutura social que o sustenta e o consagra.

Castelo, o protagonista, não é apenas um sujeito que finge saber javanês; ele representa uma figura recorrente na história humana: a do charlatão sedutor, do impostor que ascende onde o mérito deveria falar mais alto. O que ele faz não é apenas enganar, mas compreender, com precisão desconcertante, que a sociedade é altamente sensível às aparências e profundamente vulnerável ao verniz da erudição superficial. Ele percebe que basta parecer sábio para ser tratado como sábio. É dessa percepção que nasce sua trajetória, construída não sobre conhecimentos reais, mas sobre uma habilidade que, em muitos contextos, vale mais do que o saber genuíno: a capacidade de representar.

O barão, por sua vez, é o símbolo da credulidade cultivada pela vaidade intelectual. Não é enganado apenas pela astúcia do protagonista, mas por sua própria necessidade de ser visto como descobridor de talentos, mecenas do saber, alguém que reconhece um erudito onde os demais veem apenas um sujeito comum. Assim, o embuste de Castelo só funciona porque o barão necessita acreditar nele. A impostura, portanto, não nasce apenas da malícia do farsante, mas também do desejo de prestígio do enganado. A fraude é, nesse sentido, uma parceria tácita entre a vaidade e a esperteza.

A relação entre esses personagens levanta uma pergunta que atravessa séculos: por que a sociedade tantas vezes recompensa a aparência em vez da substância? A resposta, sugerida por Lima Barreto, está na superficialidade das relações humanas e na tendência de confundir símbolos com realidades. O protagonista não domina o javanês, mas domina a linguagem social da encenação. Ele sabe exatamente como vestir a postura de sábio, como escolher palavras que impressionam e como manipular expectativas. Em uma sociedade que valoriza mais o brilho do que a solidez, isso basta.

A filosofia por trás do conto evidencia que o charlatanismo não é apenas um desvio moral de indivíduos isolados; é um sintoma de estruturas sociais frágeis, nas quais o reconhecimento não depende do esforço, mas da projeção. Um ambiente em que o mérito é secundário e a astúcia se torna moeda. Muitos preferem acreditar no ilusório porque o ilusório é confortável. Assim, a impostura de Castelo não é uma anomalia, mas consequência direta de um contexto que privilegia o espetáculo e a pose.

Quando o protagonista afirma, no final, que a astúcia é o segredo do sucesso, não faz apenas uma confissão, mas oferece uma crítica ácida. Ele sabe que não triunfou apesar da fraude, mas por causa dela. Surge, então, a questão filosófica que ecoa como provocação: os fins justificam os meios? O conto não responde de forma explícita, pois a resposta depende da consciência de quem lê. O que se percebe é que a sociedade, ao longo da história, muitas vezes premiou os meios tortuosos desde que o resultado agradasse aos olhos. A honestidade intelectual, tantas vezes vista como obstáculo, é substituída por uma teatralidade institucionalizada.

Há, porém, uma reflexão ainda mais profunda: o charlatão só prospera porque encontra um espaço em que a verdade perdeu densidade. Quando uma comunidade deixa de valorizar o conhecimento real, cria-se o terreno fértil para especialistas de fachada, para personalidades que brilham mais pelo ruído do que pela substância. A figura do farsante é, assim, um alerta. Ele é o sintoma de uma enfermidade social mais grave: a perda progressiva de critérios, de referências e de princípios morais que deveriam orientar a vida coletiva.

Nesse sentido, o conto de Lima Barreto não é apenas uma crítica ao protagonista, mas também ao sistema que o acolhe e o promove. Ele nos convida a refletir sobre como nossas próprias escolhas podem sustentar ou combater a cultura da aparência. Ao ler sua narrativa, percebemos que a impostura não se combate apenas denunciando o impostor, mas fortalecendo o valor da autenticidade, da competência e da verdade, valores cada vez mais raros em uma sociedade que celebra a astúcia acima da integridade.

Por fim, permanece a pergunta inquietante: se a esperteza é valorizada mais do que o saber, que tipo de sociedade estamos formando? E que tipo de seres humanos essa sociedade incentiva a florescer? O homem que sabia javanês revela que a resposta não é simples, mas é necessária. A literatura, aqui, cumpre seu papel maior: faz-nos ver para além das aparências e reconsiderar aquilo que chamamos de sucesso, grandeza ou mérito.

*Henrique Matthiesen é Formado em Direito e Pós-Graduado em Sociologia

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