Reforma Educacional

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Nas cleptocracias, as elites dirigentes aprendem a roubar o povo, mas, não conseguem ensinar o jovem a aprender
luiz-flavio-gomes2ª parte – O governo federal não tem como bancar o programa sozinho. Sem a arrumação orçamentária, a iniciativa dos governos estaduais, a pregação federal não passa de uma voz no deserto.
Nunca o pregador terá seguidores se seus supostos seguidores não introjetarem a causa na alma e na esperança de uma vida melhor.
O Brasil tem hoje 1,7 milhão de adolescentes de 15 a 17 anos fora das escolas —16% da população nessa faixa etária, que seria a ideal ao ensino médio. É muito alto o índice de evasão escolar no ensino médio. Desde logo, adolescentes fora da escola agravam nossos problemas sociais.
Ensino obrigatório
Até os 18 anos o ensino deveria ser necessariamente obrigatório. Por lei. Filho de quem não estudou que também não estuda tem pouca chance de ser uma geração melhor que a dos pais.
Os que não estudam com afinco são os perdedores do capitalismo globalizado (que é o regime econômico vigente). Filho de pai não estudado que também não estuda perdedor é.
Mais não significa melhor
Passar a carga horária mínima de 800 horas anuais para 1.400 horas não é garantia de boa educação. Sete horas de aulas por dia já caracteriza a educação em tempo integral, mas o preso também está privado da liberdade em tempo integral e nada aprende dentro dos presídios.
Mais não é sinônimo de melhor (diz relatório recente da OCDE). Nos países de melhor desempenho o ano letivo tem 800 horas. O uso do tempo do professor é crítico. Um professor melhor preparado e bem remunerado faz mais revolução na sala de aula que um professor despreparado que fala o dia todo (J. B. Araújo e Oliveira, Folha 25/9/16).
Ensino telepresencial é ignorado
Tudo está sendo pensado de forma antiquada: professor o tempo todo com o aluno. Professor sempre presencialmente. É impressionante a ignorância do governo em relação aos usos corretos da tecnologia para a difusão de um ensino de qualidade. Como fundador de uma rede de ensino telepresencial de alta qualidade (de 2003 a 2012), fico pasmado com o atraso das nossas autoridades. Muitas aulas (não todas) poderiam ser transmitidas em tempo real.
O MEC não apresentou estudos sobre quanto as redes estaduais vão precisar gastar na expansão da infraestrutura, como a construção de escolas, para que a carga horária mínima anual do ensino médio possa ser “progressivamente ampliada”, considerando que o ensino integral impede que as escolas tenham dois turnos (matutino e vespertino).
A lei, por si só, não muda a realidade
Apresenta-se uma lei (medida provisória) aparatosa sem se saber o seu custo (e como será custeada). É preciso muita crença para se imaginar que uma lei, por si só, resolva nossos problemas cruciais.
Com “canetadas” arbitrárias o Brasil não se livrará nunca dos seus focos de atraso.
Os governantes ficam chocados quando os estudantes fazem ocupações de escolas e apresentam resistências (passeatas nas ruas, por exemplo), a exemplo do que vem acontecendo nos últimos meses (SP e RJ, por exemplo).
Mas o despreparo das elites dirigentes e seu autoritarismo é que ensejam tais descontentamentos.
Jamais podemos olhar as montanhas pelo cume, pelo topo, porque o sucesso de todo empreendimento começa por uma boa discussão com as bases.
As demandas dos alunos nem sequer foram consideradas (dizem vários especialistas) e não se sabe quantas escolas no país terão condições de cumprir o novo programa. Mais: ninguém sabe quanto as escolas privadas vão passar a cobrar (a mais) pelas mensalidades.
O atraso educacional no Brasil está estampado em todos os rankings de avaliação. Hoje apenas 6% das escolas oferecem ensino integral. Fomos o último país a ter faculdades na época da Colônia e ainda somos o 8º país com mais analfabetos.
Nossas elites dirigentes nunca priorizaram o ensino de qualidade para todos. Gastaram muito tempo aprendendo a roubar o dinheiro público, por meio da corrupção e da usurpação do dinheiro público.
O que nossas elites dirigentes deveriam saber (conforme relatório da OCDE – ver J. B. Araújo e Oliveira, Folha 25/9/16)? Continua.
*Luiz Flávio Gomes, jurista e coeditor do portal “Atualidades do Direito”. Estou no [email protected]

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